Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997)
Artigo de Rafael Alfenim e José D’Encarnação, publicado como inscrição n.º 259 do Ficheiro Epigráfico n.º 56, sobre a placa funerária encontrada na Fonte dos Frades, freguesia de Baleizão, concelho de Beja.
Título e topónimo
O título impresso e o catálogo actual da Universidade de Coimbra apresentam “Herdade da Ponte dos Frades”. O corpo do artigo, a descrição do achado e a bibliografia posterior usam Herdade da Fonte dos Frades, forma correspondente ao topónimo documentado.
Achado e conservação
- Placa funerária de mármore cinzento de Trigaches.
- Encontrada durante trabalhos agrícolas junto ao Tanque dos Arrozes, na Herdade da Fonte dos Frades.
- Guardada, em 1997, na Horta do Padre, dentro da mesma herdade.
- Dimensões: 18 x 38 x 9/12 cm.
O bloco é aproximadamente paralelepipédico, mas apresenta arestas irregulares e apenas a face inscrita foi alisada. Os autores concluem que a placa se destinava a ser embutida no frontispício de um monumento funerário, ficando visível apenas a zona epigrafada.
Inscrição
C(aius) COSCONIVS / C(aii) F(ilius) GAL(eria tribu) / H(ic) S(itus) E(st)
Aqui jaz Gaio Coscónio, filho de Gaio, da tribo Galéria.
O texto foi composto segundo um eixo de simetria e usa pontuação triangular com função estética. As letras, gravadas com goiva, são capitais monumentais quadradas. O nexo NI resolveu a falta de espaço no fim do nome.
Os autores interpretam a peça como a placa de um monumento funerário familiar. Apenas o primeiro sepultado teria sido identificado; outros membros da família poderiam ter sido enterrados no mesmo jazigo sem memória lapidar individual.
Gaio Coscónio e os primeiros colonos
A filiação e a inscrição na tribo Galéria identificam Gaio Coscónio como cidadão romano de Pax Iulia. O gentilício Cosconius era raro na epigrafia hispânica conhecida pelos autores.
A paleografia, a gravação, a simplicidade do texto e a ausência de cognomen sustentam uma datação nos finais do século I a.C.. Alfenim e D’Encarnação consideraram provável que Gaio Coscónio integrasse a primeira leva de colonos itálicos de Pax Iulia.
Numa revisão de 2023, D’Encarnação formulou a conclusão de modo mais prudente: Gaio Coscónio poderia ter sido um dos colonos iniciais ou um dos seus primeiros descendentes. Considerou ainda provável que fosse o primeiro proprietário abastado da villa, mas reconheceu que a relação espacial entre a placa, o jazigo e a residência senhorial não estava demonstrada.1
A villa da Fonte dos Frades
O artigo regista na herdade uma villa romana com:
- uma sala com ábside;
- mosaicos;
- o peristilo da domus senhorial;
- termas;
- ruínas estendidas por mais de 150 metros.
O conjunto é datado entre os séculos I e V d.C. e localiza-se no território de Pax Iulia, dentro do Conventus Pacensis. A revisão de 2023 identifica a villa como “de D. Pedro” e classifica-a entre as casas rurais romanas mais imponentes do aro de Pax Iulia.1
Entidades mencionadas
- Pessoas: Rafael Alfenim · José D’Encarnação · Gaio Coscónio
- Locais: Placa Funerária de Gaio Coscónio · Fonte dos Frades · Tanque dos Arrozes · Baleizão · Trigaches
- Temas: Ficheiro Epigráfico · Pax Iulia - Roma em Beja · Epigrafia Romana de Beja · Villae Romanas do Território Pacense · Sociedade Pacensis
Documentos relacionados
- Colonização e Emigração em Pax Iulia (Ortiz Córdoba, 2020) - enquadramento de Gaio Coscónio entre os colonos de origem itálica.
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) - inventário e interpretação da rede de villae do território pacense.
- A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) - estrutura hierárquica do povoamento rural.
Como citar
Referência (APA): Alfenim, Rafael A. E., & D’Encarnação, José (1997). Placa funerária da Herdade da Ponte dos Frades. Ficheiro Epigráfico, (56), inscrição 259, 6-9.
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Notas
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José D’Encarnação, “O senhor rico daquela Herdade”, Diário do Alentejo, 23 de Janeiro de 2023. ↩ ↩2