Um Flâmine de Tibério em Pax Iulia

Estudo de José D’Encarnação e Jorge Feio sobre o reencontro da inscrição CIL II 49, monumento honorífico romano que recorda um magistrado de Pax Iulia ligado ao culto do imperador Tibério.

Reencontro na Quinta da Mangiralda

Nos princípios de Junho de 2014, Jorge Paixão, rendeiro da Quinta da Mangiralda, informou Jorge Feio da existência de uma pedra com letras reutilizada na esquina de uma casa de apoio. A inscrição estava deitada e coberta por pintura azul. Uma limpeza sumária, realizada com a colaboração de José Bate e Jorge Cambado, revelou o monumento que até então era conhecido apenas pela transcrição de André de Resende.1

O reencontro confirmou a autenticidade da inscrição. A paleografia é romana e dissipou as dúvidas causadas pelo facto de Resende ser a única testemunha conhecida e de lhe terem sido atribuídas outras inscrições de autenticidade discutida.

O monumento

O bloco é um paralelepípedo de mármore cinzento de São Brissos/Trigaches, com dimensões conservadas de aproximadamente (50) x (45) x (65) cm. As reutilizações cortaram partes das faces laterais e eliminaram letras. Como a peça permanecia embutida no muro em 2014, os autores não puderam determinar se se tratava originalmente de um cipo ou de um pedestal.

Leitura

M(arco) AVRELIO C(aii) F(ilio) GAL(eria)

II VIR(o) FLAMINI

[T]I(berii) CAESARIS AVG(usti)

[P]RAEFEC(to) FABR(um)

[…]VLVS (?) [vel VIVS]

A inscrição homenageia Marco Aurélio, filho de Gaio, cidadão da tribo Galéria, duúnviro, flâmine de Tibério César Augusto e prefeito dos artífices.

A última linha permanece problemática. André de Resende registou D D, que interpretou como decreto decurionum, mas os vestígios conservados não confirmam essa leitura. Os autores admitem que os sinais possam pertencer a uma gravação posterior, feita durante uma das reutilizações.

Um notável de Pax Iulia

O percurso de Marco Aurélio reúne três etapas importantes da carreira municipal: o duunvirato, o flaminato e a prefeitura dos artífices. Esta última função podia servir de passagem para uma carreira equestre fora da cidade, embora a inscrição não demonstre que o homenageado tenha efectivamente alcançado esse estatuto.

A ausência de cognome e a referência directa a Tibério sustentam uma datação no reinado de 14-37 d.C. No panorama epigráfico conhecido pelos autores, este era um caso singular de flâmine municipal expressamente dedicado ao culto de Tibério na Península Ibérica. O monumento mostra a importância do culto imperial e a afirmação política da elite local.

Do fórum às muralhas

Pelas características formais e pelo conteúdo honorífico, os autores consideram que o monumento terá sido criado para um espaço solene do fórum. Esta colocação é uma interpretação, pois não existe contexto arqueológico original.

André de Resende viu a peça nas muralhas da cidade. A ordem da sua descrição permite situá-la provavelmente no sector entre as Portas de Moura e a Porta de Mértola, sem identificar um ponto exacto.

Os autores propõem que a pedra possa ter sido levada para a Quinta da Mangiralda durante obras nas fortificações e na construção do casario rural, talvez entre os finais do século XVII e os inícios do XVIII. Esta cronologia permanece uma hipótese.

Valor documental

O artigo recupera um membro da elite de Pax Iulia, confirma um testemunho epigráfico de André de Resende e documenta a circulação de materiais romanos entre o fórum, as muralhas e as propriedades rurais próximas de Beja. A inscrição acrescenta ainda um raro testemunho do culto de Tibério e da carreira dos magistrados da colónia.

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Referência

D’ENCARNAÇÃO, José; FEIO, Jorge - “Um flâmine de Tibério em Pax Iulia: CIL II 49 reencontrado”. Conimbriga. Vol. 51 (2014), p. 75-92.

O fascículo conserva na capa e nos cabeçalhos a indicação nominal “volume LI - 2012”. O índice bibliográfico oficial da revista data o artigo de 2014, ano compatível com o reencontro descrito no próprio texto.

Tags

Arqueologia Epigrafia Religião Romano

Notas

  1. Quinta da Mangiralda