A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007)

Artigo de síntese de Maria Conceição Lopes (2007) que condensa e actualiza a sua tese de doutoramento (A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes), 2000/2003) sobre a civitas de Pax Iulia. Reafirma as grandes conclusões e acrescenta dados recentes (Programa POLIS) e ênfases novas.


1. Identificação da cidade

  • Colonia civium Romanorum fundada no sudoeste peninsular (Lusitânia Meridional) nas últimas décadas do séc. I a.C., por Octaviano ou Augusto, sobre um povoado amuralhado pré-romano (com integração cultural do sudoeste desde, pelo menos, o séc. V a.C.)
  • Nome oficial fixado: Pax Iulia (Ptolemeu; epígrafes IRCP 232, 235, 242; emissões monetárias)
  • Plínio chama-lhe colonia Pacensis (só numa inscrição, IRCP 241); Estrabão chama-lhe Pax Augusta (não reproduzido em nenhum suporte)
  • Território (Fines): de Viana do Alentejo às ribeiras de Cobres e Terges, de Santa Margarida do Sado a Vila Verde de Ficalho
  • Fontes árabes (Ahmede Arrazi, séc. X; Almunime Alhimiari, séc. XI–XII): Beja como cidade antiquíssima ligada a Júlio César (etimologia “paz”)

2. História da investigação

  • Atenção de estudiosos só a partir do séc. XVII
  • Coleccionismo de Frei Manuel do Cenáculo e Abel Viana — salvaram quase em exclusivo (até ao último quartel do séc. XX) muitos vestígios, mas as escavações de Viana e F. Nunes Ribeiro nas villae acumularam peças sem registo de proveniência
  • Viragem científica (último quartel séc. XX): São Cucufate (Alarcão/Mayet/Étienne, 1990), Monte da Cegonha (Lopes/Alfenim, 1994), Carta Arqueológica de Serpa (1997), escavações na Praça de Armas do Castelo e no Conservatório

3. Crítica ao Programa POLIS ⚠️

  • Nos primeiros anos do séc. XXI, no âmbito do Programa POLIS, fizeram-se múltiplas intervenções arqueológicas pela cidade, mas sem objectivo científico: limitadas às áreas e profundidades definidas pelo dono da obra
  • “Beja deixou escapar a oportunidade de se conhecer a si mesma”
  • Deixaram entrever vestígios importantes — como um mosaico interessante na Praça da República — mas em nada contribuíram para o conhecimento integrado da cidade

4. O desconhecimento do núcleo urbano

  • Nunca foi possível um plano coerente de investigação urbana → desconhecimento quase total do aglomerado anterior à cidade moderna
  • Até finais dos anos 90 aceitava-se que Pax Iulia era fundação romana ex-nihilo, limitada pela cerca medieval de D. Dinis — hoje sabe-se que assenta sobre povoado indígena
  • Crítica às “histórias fantasistas” (origem fenícia; o “tratado de paz de César com os lusitanos” — afirmação que ainda consta do site do município!)

5. Reanálise das propostas urbanísticas

  • Jorge de Alarcão (1990): tomou a muralha medieval como romana; aproveitou o arco embutido (ver Porta de Avis) e portas medievais para traçar cardus e decumanus maximus; baseou a organização interna na convicção (de Lopes contestada) de que Abel Viana acertara ao interpretar uma estrutura como embasamento do templo do forum
  • Vasco Mantas (1994/1996): teledetecção aérea; cardines e decumani activos nas ruas actuais
  • Posição de M. Conceição Lopes: ambas as reconstituições são precárias — a interpretação do “templo” é ambígua, falta correspondência entre muralha romana e medieval; o material disponível serve de reflexão mas não valida qualquer desenho reconstitutivo. Dos equipamentos urbanos quase só se conhecem alguns tramos da cloaca

6. O mundo rural (o melhor conhecido) ⭐

A civitas = oppidum (cidade) + ager (campo). Graças à prospecção dos anos 90, o espaço rural é hoje bem conhecido. Rede tipológica hierarquizada:

TipoDefinição
VillaUnidade agro-pastoril no topo da hierarquia; edifícios (habitação, armazenamento, transformação, estábulos) + propriedade fundiária; espólio de conforto (estuques, mármores, mosaicos, importados)
CasalExploração de tipo familiar; área construída modesta; solos de médias/fracas aptidões; actividades complementares (floresta, pastorícia, caça, minério, artesanato); alguns até 0,3 ha
Pequenos sítiosApoio às villae/casais; armazenamento (dolia, ânforas), estábulos, malhadas, moinhos hidráulicos; taipa e colmo; 100–600 m²; sem área residencial permanente

Villae identificadas

Mais conhecidas: São Cucufate, Pisões, Monte da Cegonha, Cidade das Rosas. Outras de igual importância: Monte da Salsa, Monte das Oliveiras (Serpa); Horta da Aldeia, Monte da Fareleira (Vidigueira); Monte de Fonte dos Frades, S. Pedro, Cidade dos Pilares, Represas (Beja); Chaminé, Quinta do Vicente (Ferreira do Alentejo).

  • À saída da cidade: Suratesta, Fonte Figueira, Abóboda, Valdagueiro, Vale de Aguilhão, Moinhos da Quinta da Saúde
  • Raio de 6/7 km: Represas, Pisões, Apolinárias
  • Implantação: melhores solos (tipo A/B), perto de vias e de linhas de água; vertente voltada à cidade (avista-se Beja, por vezes a 20–30 km); algumas barragens para irrigação

7. Conclusões

  • Necessidade de estudo do morfodinamismo da civitas (escalas espácio-temporais; estudo da trama parcelar — ainda inexistente)
  • A confirmação da fundação sobre povoado indígena é capital: a civitas não eliminou as formas anteriores nem se ausentou do desenvolvimento posterior
  • Urge esvaziar os mitos que contaminaram a história de Beja
  • “A ideia de uma cidade de periferia, de uma cidade deprimida social, económica e culturalmente… não tem aplicação prática na cidade romana de Pax Iulia” — capital de conventus, com dinamismo do último quartel do séc. I a.C. a meados do séc. V d.C.


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Como citar

Referência (APA): Lopes, Maria Conceição (2007). A Civitas de Pax Iulia (artigo de síntese).

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