Uma Homenagem… Política! — A Inscrição de Lúcio Vero (José D’Encarnação, 2022)

Artigo de divulgação de José D’Encarnação sobre a inscrição honorífica romana dedicada pela Colónia de Pax Iulia ao futuro imperador Lúcio Vero — uma “homenagem política” para mostrar a Roma a lealdade da colónia. É a famosa inscrição de L. Aelius Aurelius Commodus, durante muito tempo exposta nos Paços do Concelho de Beja.

🏛️ Mostra como as instituições coloniais de Pax Iulia funcionavam “a rigor” — e como a epigrafia era um instrumento de diplomacia política com o poder imperial.


O texto e o homenageado

  • Tradução: “A Lúcio Élio Aurélio Cómodo, filho do imperador César Tito Élio Adriano Antonino Augusto Pio, pai da Pátria, a Colónia de Pax Iulia, por decreto dos decuriões, sendo duúnviros Quinto Petrónio Materno e Gaio Júlio Juliano
  • O homenageado é o futuro imperador Lúcio Vero (reinou 161-169), aqui como filho adoptivo de Antonino Pio
  • Datação: entre 139 (Antonino declarado Pai da Pátria) e 161 (investidura de Lúcio Vero) — talvez na altura da adopção

A leitura política

  • Honrar o filho adoptivo era, indirectamente, honrar o pai que detinha o poder — gesto de uma colónia dos confins ocidentais a mostrar que “está com” Roma (“quem meus filhos beija…”)
  • Prova que as instituições funcionavam: decisão “por decreto dos decuriões” (≈ Assembleia Municipal), executada pelos dois duúnviros (≈ presidente da Câmara), de duas famílias influentes de Pax Iulia — a Petrónia e a Júlia

O monumento e a sua história

  • Placa de mármore (de Trigaches ou S. Brissos), 88×64 cm, partida em 5 fragmentos; provável base/pedestal de uma estátua imperial (de Lúcio Vero), a ter estado no fórum de Pax Iulia; reconstituição imaginada por José Luís Madeira
  • Achada c. 1562-63 “à Lobeira” (Herdade da Lobeira, freguesia de Santiago Maior, com vestígios romanos), segundo D. Fr. Amador Arraes (Diálogos, 1589); o cónego de Badajoz Rodrigo Dosma Delgado (1601) dá-a como vinda de “Monvejar” (Mombeja, “Beja a velha”)
  • Abel Viana (catálogo de 1946) seguiu as suas peregrinações: Terreiro da Farinha, o açougue, e os Paços do Concelho; em 1782, Francisco Pérez Bayer desenhou-a (com uma cabeça de touro no topo — invenção gráfica)

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Como citar

Referência (APA): D’Encarnação, José (2022, 11 de fevereiro). Uma homenagem… política! A inscrição de Lúcio Vero. Diário do Alentejo, 30.

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