Materiais Islâmicos do Sítio da Rua do Sembrano, Beja (Helena Casmarrinha, 2013)

Dissertação de mestrado em Arqueologia Medieval (FCSH–Universidade Nova de Lisboa, 2013; orientadora Rosa Varela Gomes) de Helena Casmarrinha. Estuda a colecção de cerâmica islâmica recolhida nas escavações da Rua do Sembrano (1987–1995) — a primeira abordagem arqueológica sistemática à Beja islâmica (Bāja). Fonte teórica de referência: Santiago Macias (Mértola Islâmica, 2006).

⭐ Primeiro documento da base centrado na arqueologia islâmica de Beja — dá substância material ao período muçulmano, antes conhecido só por fontes escritas.


A Beja islâmica (Bāja) — síntese histórica

  • Conquistada para o Islão em 713; manteve a grandeza de Pax Iulia até meados do séc. X, quando começa o declínio (rarefação das fontes escritas)
  • Povoamento: famílias árabes e sobretudo berberes (sécs. VIII–IX), além de antigas famílias cristãs convertidas e moçárabes (que pagavam tributo para manter parte dos seus poderes)
  • Declínio: perde Alcácer do Sal e Évora no séc. X (que formam novas Kuwar); reduzida a 3 civitates (Pax Iulia, Myrtilis, Arandis); Mértola ganha primazia
  • Aftácidas de Badajoz (defesa em 1029, derrota de Muhammad b. al-Aftas); Ibn Qasi (de Silves) reconquista Beja após Mértola
  • Reconquista cristã — sequência: Geraldo Sem Pavor ataca Beja em 1162 (destruiu as muralhas e abandonou), 1172 e 1178; defesa de 1174; D. Sancho I ocupa em 1175 (faz prisioneiros Ibn Wazir e Ibn Timsalit); definitiva nos anos 1230 (margem esquerda do Guadiana 1232, terras a sul 1234, Mértola e linha do Guadiana 1238)

A Kura de Beja

Unidade administrativa do al-Andalus (governada por um wali/governador, na hadra/capital). Ver Kura de Beja:

  • Coincidia em parte com o antigo Conventus Pacensis romano e a diocese cristã
  • Limites variáveis; estendia-se a leste para lá da actual fronteira (até Aroche, Serra Morena)
  • Subdividida em mudun (cidades), qurā (aldeias), hisn (castelos), alcarias
  • Mértola funcionava como porto de Beja (escoamento via Guadiana)

Herança islâmica

  • Toponímia árabe abundante no distrito (Albernoa < clã Masmuda; Atalaia; Asneira < hisn); 400–1000 palavras do português de origem árabe
  • Agricultura: introdução/difusão de culturas (arroz, alperce, beringela, alcachofra), técnicas (azenha, socalcos, secagem do figo) e do moinho de rodízio vertical
  • Gastronomia alentejana de raiz islâmica: açorda (al-thurda), filhoses/fritos, almôndega

A arqueologia islâmica de Beja

Panorama das intervenções na cidade (a maioria de emergência/salvamento, com pouco material e sem estratigrafia preservada):

  • Abel Viana (anos 40–50) — principal registo do património
  • Rua D. Dinis (cerca do Hospital da Misericórdia, 1981, Fernando Branco Correia); Rua Rainha D. Amélia (1978); Rua das Portas de Moura (1987, silo); junto a Santa Maria (1988, necrópole)
  • Castelo (1994, M. Conceição Lopes — níveis islâmicos, sem troço de muralha); Conservatório (anos 90)
  • Programa POLIS (2003–05): Praça da República, Largo de S. João, Rua da Moeda
  • Necrópoles: Rua Gomes Palma e Rua de Mértola; a maior necrópole islâmica da cidade foi identificada na Escola Secundária Diogo de Gouveia (2009–2011, obras do Parque Escolar)
  • Presença árabe também nas freguesias rurais (Santa Vitória, Beringel, Baleizão, S. Brissos, Trigaches)

O sítio da Rua do Sembrano ⭐

Na freguesia de S. João Baptista. Descoberto em 1983 (obra particular); escavado 1987–1995 pelo Museu Municipal de Beja + Serviço Nacional de Arqueologia (Zona Sul), sob responsabilidade de Susana Correia e José Carlos Oliveira. Área escavada ~156 m².

Sequência de ocupação (multi-período)

PeríodoVestígios
Calcolítico (3.º milénio a.C.)Vestígios escassos
Idade do Ferro II (séc. IV–II a.C.)Troço de muralha de povoado indígena; compartimentos habitacionais; cerâmica grega importada — prova a ocupação pré-romana de Beja
Romano (séc. I a.C.–II d.C.)Termas de uma domus privada (frigidarium/caldarium/tepidarium); sigillata, lucernas, mosaicos, lápide com inscrição indiciando templo próximo
Visigótico (séc. VI–VII)Cancela decorada de uma basílica
IslâmicoCerâmica de corda seca, melados com decoração a negro, comum, talhas estampilhadas
Medieval cristãoMoedas 1.ª/2.ª dinastias; zona de artesãos (cavaletes de enfornamento)
Moderno (séc. XVII–XVIII)Ocupação intensa: cerâmica comum, vidrados, porcelana chinesa, oficinas de cerâmica/osso/ferro

A intensa ocupação posterior reutilizou e destruiu estruturas romanas e da Idade do Ferro → impossível estabelecer estratigrafia rigorosa. Hoje é o Núcleo Museológico da Rua do Sembrano (chão vidrado sobre as estruturas: termas, tanques, silos; projecto de Fernando Sequeira Mendes, POLIS 2003–04).


A cerâmica islâmica estudada

  • 217 fragmentos no conjunto (49 catalogados); cronologia séc. IX/X–XII
  • Predomínio de loiça de mesa (taças/tijelas), depois contentores de fogo (candis), vasilhame de armazenamento (potes), loiça de cozinha
  • Técnicas decorativas: vidrados melados (negro/castanho), verde e negro, corda seca (total e parcial) — peças de luxo de quem tinha poder económico
  • Talhas estampilhadas (6 fragmentos, séc. XII) — para manter a água fresca, em lugar de destaque na casa (pátio); paralelos em Mértola, Silves, Sevilha/Málaga (prováveis centros produtores)
  • Elementos micáceos nas pastas — ausentes na geologia local → importação (via porto de Silves → Guadiana → Mértola → Beja)
  • Interpretação: a presença de cerâmica de luxo importada na Rua do Sembrano sugere que aí residia uma família abastada (árabe, muladi ou moçárabe); o fim do material luxuoso no séc. XII coincide com o abandono da cidade pelas grandes famílias à aproximação cristã

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Como citar

Referência (APA): Casmarrinha, Helena Patrícia Saúde (2013). Materiais islâmicos do sítio da Rua do Sembrano [Dissertação de mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa].

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