Possível Monograma em Forma de Crux Decussata do Monte Estrela 3 (Jorge Feio, 2023)

Artigo de Jorge Feio sobre o Tijolo com Possível Monograma Cristão do Monte Estrela 3, encontrado num sítio arqueológico rural de Baleizão. A peça foi publicada como inscrição 867 do Ficheiro Epigráfico n.º 256.

Achado e proveniência

O tijolo apareceu durante trabalhos agrícolas realizados no início da década de 1990 no Monte Estrela 3, sítio onde poderá ter existido uma villa romana. Segundo o testemunho recolhido por Jorge Feio, a peça cobria a sepultura, desfeita pela movimentação das terras.

Na mesma época, o tijolo foi entregue a Fernando Valente, habitante de Nossa Senhora das Neves. Continuava na sua posse em 2023, quando o deu a conhecer ao autor e autorizou a publicação.

O tijolo e os traços

O later mede 45 por 31 por 6 cm e está danificado no topo e na lateral direita. Os sulcos foram feitos na argila ainda fresca, antes da cozedura.

Um grande X divide a superfície em quatro partes. Este tipo de marca facilitava a fractura do tijolo para o adaptar a uma construção. Sobre o cruzamento foi traçado um sulco vertical. Jorge Feio interpreta o conjunto como a sobreposição das letras gregas iota e chi, iniciais de Iesoús Christós, Jesus Cristo, formando um monograma em crux decussata.

O X terá sido desenhado primeiro, com quatro dedos ligeiramente abertos. O traço vertical foi executado de cima para baixo com os dedos juntos, deixando um sulco mais profundo. Durante a secagem, alguém pisou a peça e imprimiu a marca de uma sandália cardada.

Uma interpretação discutida

Jorge Feio distingue este sinal do crismon formado pelas letras chi e rho. Considera o monograma em crux decussata uma forma cristã rara, substituída pelo crismon ainda durante o século V.

O autor propõe uma datação no século IV ou nos inícios do século V. A cronologia baseia-se na adopção cristã da cruz depois de 312, na raridade posterior do monograma e na notícia de que o tijolo cobria uma sepultura, onde ficaria invisível sob a terra. Se a leitura estiver correcta, poderá tratar-se de um testemunho muito antigo da cristianização rural do território de Beja.

José D’Encarnação, na nota editorial, apresenta uma alternativa mais simples: o X poderá ser apenas uma marca de oleiro feita com os dedos na massa por cozer. Reconhece, contudo, que as grandes dimensões e o traço vertical são pouco comuns. A identificação cristã, a função funerária e a datação permanecem, portanto, hipóteses abertas.

Contexto regional

Segundo o artigo, não era então conhecido outro monograma deste tipo em epitáfios ou elementos arquitectónicos do Conventus Pacensis. Existiam paralelos em grafitos sobre pratos provenientes de contextos funerários de Alvito e da Quinta do Freixo, no Redondo.

O achado associa três elementos de valor desigual: um possível estabelecimento rural romano, uma sepultura destruída conhecida apenas por testemunho oral e um tijolo com sinais executados antes da cozedura. A relação entre os três é plausível, mas não foi confirmada por escavação arqueológica.

Entidades mencionadas

Documentos relacionados

Como citar

Referência (APA): Feio, Jorge (2023). Monograma em forma de crux decussata? Ficheiro Epigráfico, (256), inscrição 867, 13-16.

Tags

Arqueologia Religião Antiguidade tardia