Cupa da Herdade do Passo do Conde (D’Encarnação e Feio, 2019)

Artigo de José D’Encarnação e Jorge Feio que publica uma cupa funerária romana identificada na Herdade do Passo do Conde, em Baleizão. O estudo corresponde à inscrição 686 do Ficheiro Epigráfico n.º 184.

Localização e proveniência

A peça encontrava-se junto de um casão agrícola, usada como frade de pedra. Fernando Valente alertou os autores para a sua existência. Segundo a informação recolhida no monte, a cupa terá sido levada para aquele ponto na década de 1960 e já ali se encontrava antes de 1974. O lugar funerário romano de onde saiu não é conhecido.

A publicação usa a forma “Herdade do Passo do Conde” no título e no início do texto, mas refere também o “Monte do Paço do Conde”. A forma Paço do Conde é usada nesta enciclopédia como designação principal, conservando-se Passo do Conde como variante documentada.

Na mesma herdade foi encontrada outra cupa funerária, dedicada a Lúcio Júlio Políbio e exposta no Museu de Évora com o número de inventário 1723. A semelhança entre os dois monumentos levou a que fossem confundidos em referências anteriores.

Monumento

A cupa foi talhada em granito de tonalidade rosada e conserva-se quase completa, faltando-lhe apenas parte do soco. Mede 89 cm de comprimento, 51 cm na largura máxima do dorso e 29 cm na altura máxima sem o soco. O campo epigráfico mede cerca de 18 por 21 cm.

O dorso apresenta quatro pares de faixas que imitam aros. Nas extremidades, a decoração em cauda de peixe aproxima a peça de outras cupae conhecidas no território de Pax Iulia.

Inscrição

Os autores propõem a seguinte leitura:

D(iis) M(anibus) S(acrum)
VERVS ANN[O]/RVM XVIIII MV/STE MATER F(ilio)
P(onendum) C(uravit) H(ic) [S(itus) E(st) S(it) T(ibi) T(erra) L(evis)]

Em português: “Consagrado aos deuses Manes. Aqui jaz Vero, de 19 anos. Muste, a mãe, mandou colocar para o filho. Que a terra te seja leve.”

O texto identifica um jovem de 19 anos e a mãe que mandou colocar o monumento. A erosão da superfície e a posição da peça dificultaram a leitura, que os autores apresentam como provisória.

Leitura e incertezas

A consagração aos deuses Manes foi reconstituída sobretudo por ser habitual nas cupae da região, pois as siglas iniciais não são legíveis com segurança. O nome do defunto poderá ser Verus ou Vetus; os editores preferem Verus por ser muito mais frequente na onomástica romana.

O nome da mãe foi lido como Muste, embora os vestígios também permitam considerar Exuste. A fórmula funerária final foi igualmente restituída, sem que todas as siglas possam ser distinguidas na pedra.

Onomástica e interpretação

Os autores discutem possíveis paralelos africanos para nomes iniciados por Must-, mas sublinham que a onomástica, por si só, não prova uma origem norte-africana. A hipótese de Muste ter condição servil ou libertina também não é demonstrada pela inscrição.

A presença desta cupa e da de Lúcio Júlio Políbio levou os autores a admitir a possível existência de uma villa ou de um vicus romano na herdade. A natureza e a localização desse estabelecimento permanecem hipotéticas, porque não foram apresentadas escavações ou estruturas que permitam confirmá-lo.

Datação

A estrutura do texto e a forma das letras apontam para a segunda metade do século II d.C. Esta datação é uma proposta paleográfica.

Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): D’Encarnação, José, & Feio, Jorge (2019). Cupa da Herdade do Passo do Conde (Conventus Pacensis). Ficheiro Epigráfico, (184), inscrição 686, 8-13.

Tags

Arqueologia Epigrafia Romano