A Tomada do Castelo de Beja em 1384 (Fernão Lopes, Crónica de D. João I)

Episódio da Crónica de D. João I de Fernão Lopes (1.ª Parte, Cap. XLII — “Como foi tomado o castelo de Beja e morto o almirante micê Lançarote”) sobre o papel de Beja na crise dinástica de 1383-85. Esta nota extrai só o conteúdo de Beja (a crónica tem ~394 pp.).

⚔️ Um dos episódios mais vívidos da “arraia miúda” de Fernão Lopes: o povo de Beja toma o castelo para o Mestre de Avis contra a vontade dos “grandes” — exemplo paradigmático do levantamento popular pró-independência.


O contexto

Morto D. Fernando, a rainha D. Leonor Teles governava como regente da filha D. Beatriz (casada com o rei de Castela). O Mestre de Avis (futuro D. João I) liderava o partido da independência. As vilas tinham de tomar “voz” — pela Rainha/Castela ou pelo Mestre. Em Beja, o castelo era do alcaide Gonçalo Vasques de Melo, que o tinha “voz por a Rainha”.

A tomada do castelo

  • A Rainha escreveu ao concelho de Beja para manter a sua voz e acolher o rei de Castela
  • Os principais do lugar (Estevão Mafaldo, João Afonso Neto, mestre Joane, Rui Pais Çacoto, Mend’Afonso) reuniram-se à porta pequena de Santa Maria da Feira para ler as cartas; o povo juntou-se no adro
  • O escudeiro Gonçalo Nunes de Alvelos (“nem dos grandes nem dos mais pequenos”), com Vasco Rodrigues Carvalhal, desafiou as elites e exigiu que as cartas fossem lidas em público
  • Um tabelião leu-as e perguntou: “se querees ter ante com a Rainha, ou com o Mestre?” — o povo respondeu a uma voz: “Com o Mestre, com o Mestre!”
  • Ao verem gente de armas no castelo, o povo gritou “Alça-se o castelo!” e atacou-o; o alcaide pôs fogo a duas torres (com o armazém); o povo queimou as portas e tomou o castelo numa quarta-feira, poupando o alcaide. Gonçalo Nunes e Vasco Rodrigues alçaram voz pelo Mestre

A captura e morte do almirante Lançarote Pessanha

  • Soube-se que o almirante Lançarote Pessanha (micê Lançarote) chegara a Os Colos (a 9 léguas), a caminho de Odemira, para a alçar por Castela
  • Gonçalo Nunes, com 50 de cavalo e 100 besteiros e peões, cavalgou toda a noite e capturou-o de surpresa; preso na torre de menagem de Beja
  • Na ausência de Gonçalo Nunes, o povo, temendo que o almirante se levantasse com o castelo, obrigou Vasco Rodrigues a entregá-lo — e mataram-no “de má e desonrada morte”

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Como citar

Referência (APA): Lopes, Fernão (c. 1443). Crónica de D. João I (ed. crítica de Teresa Amado). Imprensa Nacional.

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