O Real Mosteiro da Conceição — A Sala Capitular (Leonel Borrela, 1986)
Primeira crónica da série “Iconografia Pacense” dedicada ao Convento da Conceição. Borrela usa a Sala Capitular como ponto de entrada simbólico — uma sala “extraordinariamente carregada de significado” — para uma introdução ao estudo do mosteiro que anuncia trabalhos futuros de maior fôlego.
Contexto e dimensão do edifício
O Convento da Conceição foi fundado no 3.º quartel do séc. XV pelos primeiros duques de Beja, Infante D. Fernando e Infanta D. Beatriz, pais de D. Manuel I e da Rainha D. Leonor. Era uma comunidade de Clarissas franciscanas da Ordem de Santa Clara, e chegou a ser um dos mosteiros mais ricos e sumptuosos do reino, com protecção régia.
No final do séc. XIX, antes das demolições, o edifício conventual tinha cinco vezes o volume actual. Hoje resta apenas a Igreja, o Claustro e a Sala Capitular, com estilos do gótico e gótico-manuelino ao barroco. O empobrecimento progressivo a partir da 2.ª metade do séc. XVIII teve um efeito paradoxal positivo: a ausência de novas obras preservou as mais antigas e importantes.
A Sala Capitular
A Sala Capitular (Convento da Conceição) é “por norma a sala mais regral do convento”, onde a assembleia eclesiástica debate assuntos temporais e espirituais.
Portal gótico (exterior)
- Acesso desde a Quadra do Evangelista do claustro
- Portal em mármore de Trigaches, bem delineado, de boa dimensão
- 4 arquivoltas de secção circular, com correspondência simétrica no interior
- 3.ª arquivolta: encordoamento (influência nítida do hábito franciscano; motivo presente também no portal manuelino primitivo do convento, hoje na entrada do Museu)
- 2.ª arquivolta: dois mísulas/quartelas a meia altura, para colocação de candeias ou imagens de anjos/santos (visíveis em foto de 1890 de Luciano Cordeiro)
- Intradorso: ornamentação em baixo-relevo de duas videiras com folhas e cachos (gótico final); nas bases, dois monstros alados e escamosos que “abocanham as videiras” — alegoria da luta entre o mal e as forças espirituais. Base esquerda: caracol impassível — alegoria de que “a maldade anda a passo de caracol” e da necessidade de vigilância constante
- Sopraporte: escudo de D. João II (pelicano) suportado por dois anjos — “a vitória da justiça soberana e divina sobre as forças adversas”
Interior
- 4 abóbadas de aresta que repousam ao centro numa coluna toscana — irradia e divide o espaço pelos quatro paramentos, criando 8 espaços picturais semi-circulares
- Azulejaria hispano-árabe com técnica islâmica: em cada painel há sempre um azulejo propositadamente diferente ou colocado de forma diferente — “só Alá é perfeito” (Borrela identifica a simbologia islâmica adaptada ao ambiente conventual franciscano)
- Capelinha do Cristo Crucificado (lateral)
- Portal Joanino (lado esquerdo do interior)
Pinturas a têmpera (8 espaços semi-circulares)
Provável conjunto copiado ou reinterpretado de pinturas mais antigas (hoje desaparecidas):
| Posição | Tema |
|---|---|
| 1 | S. João Evangelista — propagação da Fé pelo Evangelho |
| 2 | S. Sebastião — propagação pelo martírio |
| 3 | Baptismo de Cristo |
| 4 | Expansão da Ordem Franciscana no mundo — S. Francisco de frente para Jerusalém, com o mundo sob os pés como “peça de caça abatida”, e Cristo liberto da Cruz nos braços |
| 5–6 | [duas pinturas do paramento junto ao portal, propagação da Fé] |
| 7 | As três Ordens Franciscanas (Santa Clara, Santo António, São Francisco) |
| 8 | Inquisidor da Ordem de S. Domingos — “manifestação de força, que não é alegoria branda nem a brandura de uma rosa mística” |
A pintura da expansão franciscana é identificada por Borrela como “extraordinariamente valiosa pelo simbolismo”.
Documento fotográfico de 1890
Borrela cita uma fotografia de 1890 mandada executar por Luciano Cordeiro para a sua obra sobre Mariana Alcoforado, que documenta o portal da Sala Capitular com imagens de anjos/santos nas mísulas — entretanto desaparecidas.
Entidades mencionadas
Locais: Convento da Conceição · Sala Capitular (Convento da Conceição) · Museu Rainha D. Leonor · Trigaches
Pessoas: D. Fernando, 1.º Duque de Beja · Infanta D. Beatriz · D. Manuel I · Rainha D. Leonor · D. João II · Mariana Alcoforado · Luciano Cordeiro · Leonel Borrela
Temas: Convento da Conceição · Heráldica Pacense · Pinturas Murais de Beja · Arquitectura Mudéjar de Beja
Documentos relacionados
- Convento da Conceição de Beja — Arquitectura num Período de Transição (Nicole Martins) — estudo arquitectónico completo
- A Abóbada Nervurada da Capela-Mor da Conceição (Leonel Borrela) — abóbada da capela-mor
- Heráldica Pacense II-VI — A Heráldica do Convento da Conceição (Leonel Borrela) — heráldica do convento
- A Janela de Mértola (Leonel Borrela) — janela de Mariana no Convento
Como citar
Borrela, Leonel (1986, 21 de Março). O Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja (1). Diário do Alentejo, ano LIV, II série, n.º 204, p. 2.
Tags
iconografia-pacense conventos arte-sacra gotico manuelino beja