Castelo de Beja — Série 1996 (Leonel Borrela)

Série de percurso sistemático pela fortification de Beja, artigo a artigo, do exterior ao interior, com análise arqueológica e histórica. Artigos disponíveis: Castelos (intro) + I, II, III, IV, V, VII, IX, X, XI, XII, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXI. O artigo XVIII estava arquivado erroneamente como “2000”.

Art. “Castelos” (22 Mar 1996)

Artigo introdutório filosófico sobre castelos como construções defensivas humanas. Sem conteúdo monumental específico.

Art. I — O mirante da planície alentejana (5 Abr 1996)

Panorama cronológico da fortification. Planta sumária publicada com legenda:

  • Portas romanas: 1 Mértola · 2 Vipasca (?) · 3 Évora · 4 Avis
  • Portas medievais: 5 Aljustrel · 6 Moura · 7 Santo Estevão/Prazeres · 8 Novas de Évora · 9 S. Sisenando / “Porta Nova” (mais recente, séc. XVI/XVII)
  • X = torres e panos demolidos · 10 Torre de Menagem · 11 Portas da Vila · 12 Porta da Traição

Muralha da Idade do Ferro (1000–200 a.C.) identificada nas “ruínas romanas da Rua do Sembrano”: cerca de 2 m de largura, blocos irregulares não aparelhados. Achados da Idade do Bronze (2000–1000 a.C.) no entorno. Populações do Ferro mantinham relações comerciais mediterrâneas e usavam escrita ibérica/do sudoeste peninsular — maior concentração de lápides epigrafadas em Beja/Algarve e Andaluzia/Extremadura.

Art. II — As portas romanas de Mértola (12 Abr 1996)

Via Beja–Mértola–Mediterrâneo: principal eixo militar, diplomático e comercial. Primeiro convento franciscano (2.ª metade séc. XIII) colocado extramural junto às Portas de Mértola, sobre necrópole romana de incineração considerada sagrada.

Escavações 1993/94 (adaptação de S. Francisco a pousada, Museu Regional + Serviços Regionais de Arqueologia da Zona Sul): encontrada necrópole romana de incineração sob as galerias do claustro, possivelmente finais séc. I a.C./início séc. I d.C. Urnas (~60×40 cm). De uma urna: lucerna + disco de bronze oxidado com pequenos furos na orla — possivelmente uma falera (disco metálico honorífico, normalmente de ouro/dourado, encimava as águias imperiais romanas).

Art. III — O Convento da Esperança (19 Abr 1996)

Convento de Nossa Senhora da Esperança: entre as actuais Rua Alexandre Herculano (= antiga Rua da Esperança) e a Travessa Almeida Garrett (= Beco da Esperança, extramural). Primeira clausura de religiosas carmelitas calçadas em Beja e em Portugal, intramural. Fundada por D. Leonor Colaço em 1541. Edifício amplo que se sobrepunha à muralha.

Em 1644 (vistoria da Guerra da Restauração): engenheiro Pedro Pelefique (“engenheiro ordinário de Sua Majestade, D. João IV”) constatou que as religiosas tinham ocupado com quintais a barbacã e duas torres. Totalmente demolido em 1897, apesar das promessas do PM Hintze Ribeiro (4 Fev 1897 concedera a igreja e parte à Irmandade de N.ª Sra. das Dores). A 6 Out 1903 a CMB tomou posse, construindo uma escola mista (durou ~40 anos até 1948 quando se construiu o actual tribunal). Igreja conventual de nave única, coberta de azulejaria.

Art. IV — Colégio dos Jesuítas (26 Abr 1996)

Colégio dos Jesuítas e Paço Episcopal — nome verdadeiro: Colégio de S. Francisco Xavier (também invocado como S. Sisenando). Maior massa arquitectónica da cidade, inacabada. Actualmente: Universidade Moderna + GNR.

Capéla de S. Sisenando adjacente (construída a partir de 1652 pela sua confraria; doada aos Jesuítas em 1670). Os Jesuítas obtiveram consentimento de D. Pedro II com beneplacito de D. Maria Sofia de Neobourg; escritura lavrada a 2 Dez 1693. Obras problemáticas (demoliram parte da muralha, ocuparam parte da mouraria; guerra com Espanha em curso).

Jesuítas expulsos em 1759 por Pombal. A 6 Jun 1771 o edifício foi doado ao bispado de Beja (criado a 10 Jun 1770) na pessoa de D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas. Sob Cenáculo:

  • Biblioteca com ~9.000 volumes
  • Museu Sisenando Cenáculo Pacense — possivelmente o primeiro museu arqueológico do país
  • Academia Eclesiástica de Beja

Após República: Governo Civil, Seminário, Celeiro Comum → quartell da GNR.

Art. V — Portas de Moura (3 Mai 1996)

Rua da Muralha (desde Rua dos Combatentes da Grande Guerra): parede de fraca espessura entre torre demolida (final séc. XIX) e a seguinte. A partir das duas torres da Rua da Muralha: espessura original preservada (~1,20 m) e vestígios de barbacã.

Portas de Moura hoje: abertura mais ampla do que seria original; dois medalhos do Agnus Dei (cordeiro = símbolo de S. João Baptista) questionados por Borrela quanto à origem. Prometia reconstituição semelhante à “Nova Porta de Évora” em crónica posterior. A maior parte da muralha pertence ao domínio privado. Mouraria extramural: ferreiros, ferradores, adegas, albergues, moinhos.

Art. VII — Das Portas de Avis às de Évora (14 Jun 1996)

Troço mais íngreme da cidade; barbacã mais ou menos reconstruída/restaurada/destruída. “Torzinha” próxima do Arco de Avis — construção “ridícula dos anos 40”. Rua da Guia (intramuros): declive acentuado; zona da antiga Judiaria e Rua de S. Gregório; influência islâmica em chaminés e muros recortados. Referência a Félix Caetano da Silva (Antiguidades da Cidade de Beja).

Art. IX — Portas de Évora (1996)

Percurso: Rua Alferes Malheiro → Av. Miguel Fernandes → Rua da Liberdade → Jardim do Bacalhau → Rua Capitão Francisco de Sousa.

Portas de Évora eram duas: (1) romanas — ainda in situ, usadas até dinastia de Avis, depois bloqueadas pelo casario; (2) novas — construídas possivelmente contemporâneas do Hospital Velho. Brasão de D. Manuel I colocado no corte da muralha. Beco da Piedade (antes rua até à de Afonso Lopes Vieira com passadiço) indica a orientação axial das novas portas.

Art. X — Hospital Velho (1996)

Hospital Velho (Beja) adossado à muralha desde séc. XV. Em 1981, construção de sanitários públicos no muro do cemitério dos pobres → porta descoberta no paramento interior da muralha, tapada imediatamente. Em 1987 Borrela encontrou a capéla-mor mais antiga da Igreja do Hospital, oculta sob talha dourada proveniente de S. Francisco — a muralha havia sido “aberta” para construir a tribuna policromada e escadarias. Torre flanqueante (oeste) serve de sineira; acesso por portal gótico siglado de arco canopial.

Art. XI — O mistério da sacristia da Igreja dos Prazeres (19 Jul 1996)

Quinta torre oculta sob a sacristia da Igreja dos Prazeres (Beja) — nunca mencionada antes, escondida desde o séc. XVII/XVIII. Igreja dos Prazeres: vulgaríssima por fora (adro intramuros); por fora tem ábside cilíndrica e casinhoto da sacristia. Interior: “autêntico museu de arte sacra” em talha, azulejaria e pintura trompe l’oeil (Maneirista e Barroco).

Art. XII — Postigo dos Prazeres à Rua Portas de Aljustrel (1996)

Três torres neste troço. Portas de Aljustrel demolidas em 1864. Publicado documento do Livro das Vereações (31 Dez 1610): pintor Júlio Dinis de Carvalho comprometia-se a fazer “um painel na Porta Nova de Santo Estevão, da banda de fora: um Anjo, Santo Estevão e o Espírito Santo” pelo preço de 3.000 réis. Igreja dos Prazeres construída c. 62 anos depois (= 1672). Extramural: Largo da Corredoura → Praça Serpa Pinto → actual Avenida Miguel Fernandes (antiga feira de gado em Agosto). Estalagem do Vargas (desaparecida): à direita da Rua do Arco da Gavioa; alojava o poeta João de Deus. Em 1833, Tenente-Coronel Francisco Romão derrotou forças [Liberais] neste largo.

Art. XIII — Jardim do Bacalhau (9 Ago 1996)

Três torres neste lado. Praça actual: Praça Diogo Fernandes (= Jardim do Bacalhau; antigo: Praça de Santa Catarina, nome mais antigo conhecido). 1ª torre: medieval, com lápide epigrafada (escudo nacional) retirada final séc. XIX (cf. O Bejense 27-6-1891 e Arquivo de Beja vol. II pp. 109, 241-242, 1945): data de 1345 anos = 1307 d.C. (construção). Lápide agora na Basilica de Santo Amaro; no reverso: decoração visigótica (peltas sobrepostas, rosetas, encordoados, sécs. VI/VII). 3ª torre (“romana de Vipasca / de Santa Catarina / da Calçada”): ocultada por construção de 2.º piso com azulejos verdes (há ~10 anos).

Art. XIV — (artigo XIV é o da Rua do Captivo)

(Ver Castelo de Beja — XIV, Rua do Captivo (Leonel Borrela, 1996).)

Art. XV — A defesa da praça de armas (1996)

Alcáçova como último reduto da alcaidaria. D. Afonso Henriques conquistou Beja em 1159, abandonou 4 meses depois — fortaleza era das maiores do país, muito isolada. Da vista de A.F.P. Graça (1850): barbacã ainda intacta no lado leste.

Art. XVI — Torre de Menagem I (30 Ago 1996)

“A construção militar e último reduto defensivo de alcaidaria mais imponente e bela do nosso país.” Maioria das torres de menagem portuguesas atribuídas a D. Dinis; a de Beja (como Estremoz) também. Mas: nenhuma prova heráldica ou epigráfica de fundação dionisiana. As 4 faces são desiguais entre si; sem simetria interior — reflecte tradição islâmica de imperfeição intencional (cf. azulejaria de aresta sevilhana da sala capitular da Conceição).

Art. XVII — Torre de Menagem II (6 Set 1996)

Vãos em alfiz de tradição muçulmana: portal de entrada; escada de caracol para 2.º piso com balcão (originalmente ameado com frestas); janela de arco de ferradura entre 2.º e 3.º piso; três trompas com mísulas alveoladas tipo estalactites (gosto oriental). 1.ª sala: acesso pelo adarve da alcáçova. Conclusão de Borrela: se D. Dinis construiu uma torre, ou não se concluiu ou foi demolida para dar lugar à actual — muito mais islâmica do que dionisiana.

Art. XIX — (4 Out 1996)

Plano histórico da fortification de Beja publicado com legenda numerada.

Art. XXI — Beja em 1850 (18 Out 1996)

Vista de A.F. Paula Graça (Mar 1850): “Perspectiva da cidade de Beja, dedicada aos ilustres habitantes da mesma” — a melhor vista geral conhecida de Beja. Tomada de Leste: longas secções de muralha com torres bem espaçadas + baluarte seiscentista incompleto frente às Portas de Moura. Abel Viana (Arquivo de Beja, vol. I, fasc. IV, 1944, p.379): barbacã ainda existia naquele troço em 1850.

Art. XVIII — Uma vista geral de Beja no século XVII (27 Set 1996)

Artur Anselmo (bibliófilo) possui uma vista geral de Beja de meados do séc. XVII, anónima, a aguarela sobre desenho a cor de terra de siena queimada — até então documento desconhecido. Apresentada numa conferência na Biblioteca Municipal (3 anos antes de 1996) e exposta durante a Feira de Agosto de 1994. Borrela reproduz-a em desenho a partir de fotografia da projecção.

Análise da vista: pouco rigor nas proporções; quase tudo desenhado à régua; identificam-se simbolicamente: Capela de N.ª Sra. da Guia (construída em 1635 por António Lopes Baião sobre as Portas de Avis); a Torrinha (já mencionada desde o início do séc. XVI); igrejas de S. Tiago, Santo Amaro (torre sineira com dois olhais paralelos na empena frontária), Salvador, Pé da Cruz, Capela do Calvário; Convento de S. Francisco (perspectiva rodada a 90°); Convento da Conceição e Palácio dos Infantes; Torre de Menagem (com a janela de arco de ferradura mal posicionada e janela geminada deslocada); parte de um baluarte da muralhada da Restauração (defronte das Portas de Moura — o empenho no desenho indica que estaria bem construído). Ausentes: Igreja de S. João Baptista (zona mais alta, próximo do cinema Pax-Júlia), Convento da Esperança (intramuros, perto de S. Francisco), Capéla de S. Sesenando (fundada 1652 — ou não a viu ou ainda não estava construída).

A referência cruzada à crónica da vista quinhentista: cf. DA, 23/2/96 (já processada em Vista Geral de Beja do Século XVI (Leonel Borrela)).

Entidades Mencionadas

Castelo de Beja · Torre de Menagem (Castelo de Beja) · Muralhas de Beja · Convento da Esperança · Colégio dos Jesuítas e Paço Episcopal · Hospital Velho (Beja) · Igreja dos Prazeres (Beja) · D. Leonor Colaço · D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas · João de Deus · Abel Viana · Félix Caetano da Silva · Pedro Pelefique · Júlio Dinis de Carvalho · Hintze Ribeiro · D. Maria Sofia de Neobourg · Francisco Romão

Fontes

Borrela, L. (1996, Março 22). Castelos. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Abril 5). Castelo de Beja — I. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Abril 12). Castelo de Beja — II. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Abril 19). Castelo de Beja — III. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Abril 26). Castelo de Beja — IV. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Maio 3). Castelo de Beja — V. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996, Junho 14). Castelo de Beja — VII. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1996). Castelo de Beja — IX a XXI. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense.