A Igreja da Misericórdia de Beja (Leonel Borrela, 1997)
Série de três crónicas da Iconografia Pacense (Diário do Alentejo, 17 Jan–6 Fev 1997), dedicada à história e arquitectura da Igreja da Misericórdia.
Resumo
Artigo I — Origem e percurso histórico
- A Igreja da Misericórdia é uma loggia renascentista fundada pelo príncipe Infante D. Luís (5.º duque de Beja), destinada a açougue da cidade (mercado de carnes), no extremo noroeste do antigo Terreiro dos Banhos — área que seu pai D. Manuel I havia mandado regularizar.
- Em carta de 17 de Maio de 1550, D. Luís comunicou ao município a sua intenção de destinar o edifício (saído “tão magnificente que mais parecia obra destinada a fins pios”) à Santa Casa da Misericórdia de Beja.
- A Misericórdia, fundada em 1500, estava até então instalada em espaço exíguo nos anexos da Igreja de Santa Maria da Feira, sendo também administradora do Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade.
- Após adaptação como igreja e construção de casas traseiras para a irmandade, ali ficou sediada durante “três centúrias, ou pouco mais”.
- Entre os provedores destaca Francisco da Costa Alcoforado, pai de Mariana Alcoforado e sogro de Rui de Melo; outros homens do seu círculo de poder: Bartolomeu Lobo (governador militar de Beja) e Cristóvão Pantoja.
- Após a vitória liberal e extinção das casas monásticas, a Misericórdia viu dispersar-se o seu arquivo e bens; o espólio artístico foi em grande parte destruído ou deslocado.
- Na 1.ª República o templo funcionou como carpintaria municipal; c. 1920 foi-lhe sobreposto um depósito de água, obrigando à colocação de esticadores nos paramentos laterais para suportar o peso sobre as abóbadas.
- Classificação como Monumento Nacional (Dec. n.º 22 744, de 27 Jun 1933) — iniciativa de Diogo F. Castro e Brito, notável investigador de arte.
- Obras polémicas da D.G.E.M.N. entre 1941 e 1958 “apagaram quase toda a história da igreja”.
Artigo II — Recheio artístico perdido e achados arqueológicos
- Das obras da DGEMN resultou a condenação da quase totalidade do recheio: pinturas, talhas douradas e policromadas, azulejos, estuques e caixotões pintados da casa de reuniões da irmandade.
- Recolhidos no Museu Regional:
- Quatro pinturas maneiristas de António Nogueira (1564)
- Uma “Virgem no Templo” (quinhentista, anónima)
- Um “Juízo Final” setecentista, de Bento Coelho da Silveira
- Púlpito de madeira policroma, maneirista, “raríssimo em Portugal”
- Algumas talhas douradas reaproveitadas na Igreja conventual de Santo António (Patronato)
- O que resta no edifício: o portal principal (adaptado ao fundo da nave central), o coro mandado fazer pelo provedor Diogo Rabelo (1622) e a sacristia tardo-quinhentista, com lavabo insculturado com as cinco chagas de Cristo.
- A Casa da Irmandade (Sala de Reuniões) não foi recuperada nas obras, desaparecendo os seus caixotões pintados de motivação floral e brutescos.
- Elias Cação Ribeiro aponta possível reaproveitamento de blocos romanos nas fundações, com aparelho similar ao do cunhal do albergue de S. José (Rua de S. Gregório).
- Um fuste-base decorado a pontas de diamante (mármores de Trigaches), exposto no Museu Regional, é possivelmente da própria Misericórdia — paralelo com pia de água benta no claustro do convento de Santo António e um fecho na parede exterior da casa da irmandade dos Prazeres.
Artigo III — Análise arquitectónica da loggia
- A loggia tinha inicialmente duas colunas, seis meias e quatro “quartas” colunas adossadas, suportando seis abóbadas — o acréscimo para as nove abóbadas actuais ocorreu na adaptação a igreja, no último quartel do séc. XVI (não logo após 1550, como se havia suposto).
- O primeiro espaço da igreja teria dois tramos de três naves, enquadrado pelos dois pilares do tardoz da loggia; a sua existência é sugerida por traços “imperfeitamente apagados” de anterior união.
- As quatro pinturas de António Nogueira (1564) estariam expostas nessa primeira configuração da capela-mor.
- Albrecht Haupt visitou Beja em finais do séc. XIX e classificou a Misericórdia como “um dos mais belos edifícios da cidade”.
- Referência ao Boletim n.º 83 da DGEMN (Março 1956) sobre as obras de reintegração — planta da Casa da Irmandade antes das obras.
Entidades mencionadas
Locais: Igreja da Misericórdia · Santa Casa da Misericórdia de Beja · Praça da República (Beja) · Hospital de Nossa Senhora da Piedade · Museu Rainha D. Leonor · Igreja de Santo António · Igreja de Santa Maria da Feira · Trigaches
Pessoas: Infante D. Luís · D. Manuel I · Francisco da Costa Alcoforado · Mariana Alcoforado · Diogo F. Castro e Brito · António Nogueira · Bento Coelho da Silveira · Diogo Rabelo · Elias Cação Ribeiro · Albrecht Haupt · Maria Goretti Margalha · Túlio Espanca
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Como citar
Borrela, Leonel (1997). A Igreja da Misericórdia (I, II e III). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense, n.º 769–771, 17 Jan–6 Fev 1997.
Tags
iconografia-pacense patrimonio igreja renascentista misericordia