Monte do Arcediago - Um Possível Monasterium
Estudo arqueológico de Jorge Feio e Carlos Maneira e Costa sobre um grande edifício absidado identificado em 2011 no Monte do Arcediago, entre Beringel e Beja, e sobre o conjunto de elementos arquitectónicos e litúrgicos que lhe é atribuído.
Descoberta e planta
O edifício foi reconhecido por Carlos Maneira e Costa durante o acompanhamento arqueológico de uma área de empréstimo de inertes para as obras da A26. Conservavam-se apenas as fundações, com 17,12 m de largura exterior e quase 20 m de comprimento visível. A abside, voltada a nascente, tinha 5,43 m de abertura.1
Os autores reconstituem, como hipótese, um corpo com cerca de 22,76 m de comprimento, três naves e uma entrada lateral a norte. A dimensão e a planta aproximam o edifício da basílica do Rossio do Carmo, em Mértola, mas essa comparação não demonstra que os dois edifícios tivessem a mesma função ou dependência.
Cronologia
O aterro de regularização conservava materiais de construção e fragmentos de terra sigillata clara D, incluindo formas Hayes 61A e 91A/B. Com base nestes materiais e na decoração das peças de mármore, os autores situam a construção entre meados do século V e o início do VI.1
O sítio sofreu uma destruição profunda com dinamite durante as campanhas do trigo, segundo testemunhos recolhidos junto de antigos trabalhadores. A ausência de escavação integral impede conhecer a organização completa, as fases de utilização e o abandono do edifício.
Villa, caminhos e função possível
As fundações ficam a cerca de 300 m da principal concentração de vestígios da Villa da Fonte dos Cântaros. Não é possível estabelecer se a villa e o edifício cristão funcionaram simultaneamente ou se este ocupou uma propriedade já abandonada.
O local encontrava-se próximo das vias que ligavam Pax Iulia a Mirobriga e ao litoral, bem como de uma possível bifurcação para Scallabis junto da Ponte de Lisboa. Os autores propõem que um eventual monasterium pudesse apoiar viajantes e peregrinos, hipótese que depende da confirmação da natureza monástica do complexo.
Elementos arquitectónicos e litúrgicos
O estudo reúne peças que terão sido retiradas do sítio e divididas entre famílias proprietárias durante o século XX:
- uma transenna completa, decorada com quadrifólios;
- uma placa ou possível nicho com vieira, coroa e motivos vegetais;
- um fuste de coluna completo e duas bases, compatíveis com a divisão interna em naves;
- um provável colunelo e uma base de altar com quatro encaixes;
- um fragmento de transenna conservado no Monte da Diabrória.
A proveniência das peças assenta na memória dos antigos trabalhadores e das famílias que as conservaram. A associação ao edifício é coerente, mas não foi demonstrada por escavação estratigráfica.
Cristianização rural
O artigo relaciona o Monte do Arcediago com outros testemunhos cristãos do actual concelho, entre eles o Monte de Maria do Vale, o Monte Chícharo, o Monte de Vale de Alcaide de Baixo, a Inscrição Funerária de Maura do Monte de Vale de Aguilhão e a Ermida de S. Pedro de Pomares. Os autores contabilizam dezoito sítios rurais com indícios especiais de edifícios cristãos no município, sobretudo a partir do século V.
Interpretação
A leitura do conjunto como basílica rural é sustentada pela planta absidada e pelas peças litúrgicas. A identificação mais específica como monasterium permanece uma proposta. O artigo mantém igualmente em aberto a alternativa de um edifício cristão associado a uma villa tardia.
Entidades relacionadas
- Monte do Arcediago
- Villa da Fonte dos Cântaros
- Monte da Diabrória
- Jorge Feio
- Carlos Maneira e Costa
- António Almodôvar
- Beja Visigótica
- Bispado Visigótico de Beja
- Villae Romanas do Território Pacense
Referência
FEIO, Jorge; COSTA, Carlos Maneira e - “Monte do Arcediago: um possível monasterium do século VI no território da colonia Pacensis? Novos dados”. Revista Portuguesa de Arqueologia. Vol. 28 (2025), p. 237-256.
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Arqueologia Religião Antiguidade tardia