Alterações de Beja de 1593 e Revolta dos Ingleses de 1596 (Fernando Bouza Álvarez)

Artigo de Fernando Bouza Álvarez sobre a luta política no final do reinado de D. Filipe I, centrado na relação entre a ameaça antoniana, a intervenção inglesa e o poder das elites portuguesas. O estudo publica a investigação mais detalhada conhecida sobre as Alterações de Beja de 1593, reconstruindo o episódio através de correspondência governativa e documentação de arquivo.

O texto exacto dos pasquins não foi localizado. O seu conteúdo é reconstituído a partir das cartas de João de Silva, Conde de Portalegre, que resumem a exortação como “que se levanten los Pueblos y busquen otro Rey”.


Os pasquins de 29 de Agosto de 1593

Apenas duas semanas depois da partida do vice-rei Arquiduque Alberto de Áustria, o corregedor e o juiz de fora de Beja comunicaram a Lisboa que, em 29 de Agosto de 1593, tinham aparecido nas portas da igreja principal e de outras igrejas da cidade uns “papéis abomináveis”. A identificação da igreja principal com a actual Igreja de Santa Maria da Feira é explicitada por Joaquim Filipe Mósca, que a descreve como a catedral daquele tempo.

Papéis da mesma letra e substância surgiram também em Moura e Mourão. Segundo a correspondência citada por Bouza, não se limitavam a criticar uma medida concreta: acusavam o rei de tratar os vassalos de forma insuportável, chamavam os povos a levantar-se e defendiam a procura de outro rei. Invocavam ainda o alegado direito electivo do povo português, exemplos dos Países Baixos e de França e a legitimidade de D. António, Prior do Crato.

Bouza interpreta a escolha de Beja como deliberada. A cidade conservava a memória de Infante D. Luís, pai de D. António e senhor ligado ao Ducado de Beja, e o clero bejense participara nos conflitos de jurisdição entre a arquidiocese de Évora e a oficialidade régia.

Investigação e presença militar

Os governadores encarregaram o corregedor Francisco Cardoso (corregedor) de investigar e punir o delito. João de Silva desviou para Beja cinco companhias, conduzidas pelo capitão Pero Ximénez de Heredia, com a intenção declarada de intimidar uma cidade considerada importante. As tropas permaneceram até finais de Outubro e o seu alojamento em casas particulares motivou queixas da cidade.

Em Outubro, Francisco Cardoso mandou prender em Arraiolos Santos Pais, acusado de ter afixado os pasquins em Beja, Moura e Mourão. O processo foi entregue a Lourenço Correia. Santos Pais negou a autoria, alegou estar em Castela quando os papéis apareceram e afirmou tê-los conhecido por um viajante. Em Junho de 1594 começou a confessar, mas, segundo João de Silva, apenas implicava ausentes ou mortos. Bouza não localizou o processo, a causa nem uma eventual sentença, pelo que a autoria permanece por demonstrar.

Alcance político

O chamamento não desencadeou a grande revolta pretendida. Para Bouza, a ausência de direcção e apoio da alta nobreza foi decisiva: uma mobilização popular isolada dificilmente poderia transformar-se numa alteração duradoura. A crise mostra, porém, que o domínio filipino continuava ameaçado pelo antonianismo e dependia da colaboração das elites territoriais portuguesas.

O artigo acompanha esta tese até à chamada Revolta dos Ingleses de 1596, quando os fidalgos reunidos para defender Lisboa recusaram servir sob comando não português. O episódio obrigou a Coroa a reconhecer-lhes um papel central como defensores das liberdades do reino e beneficiários da união dinástica.

Entidades mencionadas

Pessoas

Locais e temas

Documentos relacionados

Como citar

Referência (APA): Bouza Álvarez, Fernando (1997). De las alteraciones de Beja (1593) a la revuelta lisboeta “dos ingleses” (1596): lucha política en el último Portugal del primer Felipe. Studia Historica. Historia Moderna, 17, 91-120.

Tags

Acontecimento História militar Poder e administração Idade moderna