A Necrópole de Palhais (Santos et al., 2016)

Revisão aprofundada da Necrópole de Palhais por Filipe J. C. Santos, Ana Sofia Antunes, Manuela de Deus e Carolina Grilo. O capítulo reanalisa a totalidade do conjunto artefactual, corrige interpretações da publicação preliminar de 2009 e enquadra Palhais no conjunto de necrópoles da I Idade do Ferro entretanto escavadas na região de Beja.

Implantação e limites da escavação

O sítio localiza-se numa área aplanada perto de Beringel, cerca de 13 km a nordeste de Beja, entre pequenas linhas de água ligadas às ribeiras do Monte do Marquês e do Galego. A vala que levou à descoberta destruiu parcialmente todas as estruturas observadas e a escavação incidiu apenas na faixa afectada, impedindo conhecer a dimensão da necrópole.

Recintos funerários

O Recinto 1 era delimitado por uma estrutura escavada na rocha, de secção subrectangular, com largura média de 0,75 m e profundidade máxima preservada de 1,30 m. A distância interna entre os troços oeste e este atingia 7,20 m. A planta completa não foi escavada, mas é provável que fosse subquadrangular ou subrectangular.

No canto sudoeste do troço escavado foram depositados recipientes cerâmicos manuais. A concentração e a posição de algumas peças tornam provável a sua relação com práticas funerárias ou votivas, embora os processos pós-deposicionais impeçam reconstruir um único acto com segurança.

Um segundo troço cortava o Recinto 1 e poderá pertencer a outro recinto adossado. A escassa área observada não permite decidir se correspondia a um monumento funerário autónomo.

Sepulturas de inumação

Foram escavadas três inumações e reconhecida a extremidade possível de uma quarta. As fossas tinham planta rectangular ou oblonga, extremidades arredondadas e orientação oeste-este.

  • Sepultura 1: mulher adulta em posição flectida, acompanhada por 438 contas anelares e uma conta fusiforme, fíbula de tipo Alcores, pequeno punhal de ferro e conjunto de toucador de bronze.
  • Sepultura 2: mulher adulta em posição flectida, com contas de pasta vítrea, faiança e prata, pendente de prata em forma de bolota, pendente cerâmico, escaravelho de faiança com Amon-Ré, fecho de cinturão, faca de ferro e conjunto de toucador.
  • Sepultura 4: inumação adulta de sexo indeterminado, perturbada numa época desconhecida. Conservava uma provável ponta de lança; uma pequena taça encontrada no enchimento perturbado poderá ter pertencido a um incensário, mas a associação é incerta.
  • Sepultura 5: apenas uma depressão no limite da escavação sugere a continuação de outra fossa; a identificação permanece hipotética.

As sepulturas 1 e 2 foram abertas depois da colmatação dos recintos. A localização relativamente central da sepultura 4 permite propor que fizesse parte do planeamento do Recinto 1, mas faltam relações estratigráficas que o demonstrem.

Revisão da suposta incineração

A Estrutura 3 da Necrópole de Palhais, anteriormente publicada como sepultura de incineração, continha quatro recipientes manuais: um vaso à chardon com tampa, dois vasos de carena baixa pintados e um vaso de pé elevado pintado, coroado por aves modeladas e associado a macrorrestos carbonizados.

O tratamento laboratorial mostrou que o vaso tapado e os restantes recipientes não continham ossos nem cinzas. Os autores deixam, por isso, de sustentar a existência de uma incineração em Palhais. A estrutura poderá ter servido práticas rituais ou votivas; o vaso coroado por aves poderá ter funcionado como queimador, mas esta leitura é uma hipótese.

Cronologia

Não existem datações absolutas e vários artefactos tiveram longos períodos de produção e circulação. A construção e colmatação do Recinto 1 são situadas entre a segunda metade do século VI e o início do V a.C. A Estrutura 3 poderá pertencer à segunda metade do século VI e alcançar o início da centúria seguinte. A sepultura 2 será posterior aos dois recintos e poderá datar do último quartel do século VI a meados do V a.C.

O intervalo global proposto para a utilização documentada da necrópole decorre, de modo cauteloso, entre meados do século VI e meados do século V a.C.

Redes culturais e significado social

Os objectos pessoais associam Palhais a repertórios orientalizantes do Baixo Guadalquivir, do litoral atlântico e da Estremadura espanhola. As aves modeladas ou incisas são interpretadas no quadro de uma simbologia mediterrânica relacionada com a morte e a passagem ao além, mas a função concreta de cada recipiente não é demonstrável.

Os autores admitem que os monumentos delimitados por recintos se destinassem a indivíduos socialmente destacados. O espólio das duas mulheres, sobretudo os conjuntos de toucador, os adornos, a fíbula e o fecho de cinturão, indica diferenciação social, mas não permite atribuir-lhes uma identidade ou posição específica.

Entidades mencionadas

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Como citar

Santos, Filipe J. C., Antunes, Ana Sofia, Deus, Manuela de, & Grilo, Carolina (2016). A necrópole de Palhais (Beringel, Beja). In Javier Jiménez Ávila (Ed.), Sidereum Ana III: El río Guadiana y Tartessos (pp. 227-261). Mérida: Consorcio de la Ciudad Monumental, Histórico-Artística y Arqueológica de Mérida.

Tags

Arqueologia Proto-história