Os Touros de Beja (Bruno Ferreira, O Atual, 2023–2024)
Artigo de divulgação histórica sobre o Touro como símbolo permanente da cidade de Beja desde a Idade do Ferro até ao séc. XX. Reúne dados de múltiplas fontes (Conceição Lopes, Leonel Borrela, André Tomé, André de Resende, Frei Cenáculo, Marta Páscoa) e constitui uma síntese iconográfica da presença taurina na cidade.
Touro de Cinco Reis (Idade do Ferro, séc. VII a.C.)
Escultura votiva de cerâmica, oca, de um touro da 1.ª Idade do Ferro — encontrada em 2011 durante a construção do adutor Pisão–Beja–5 Reis, na Necrópole de Cinco Reis. Dimensões: 23 cm × 17 cm × 45 cm. Animal representado tombado sobre a barriga, apoiado em três pernas; olhos na parte frontal (humanização); marcas de cordas na cabeça (domesticação). Elemento de monumento funerário associado à sepultura de um adulto, “possivelmente um guerreiro” (António Pereira) — acompanhado de duas lanças, punhal, vaso cerâmico e adereços (pulseiras, colares, alfinetes). Fonte: António Pereira (arqueólogo); National Geographic, 4 Ago 2020; Jornal Público, 1 Mai 2012.1
Touro da Praça da República (Idade do Ferro → período augustano)
Pequena escultura de touro encontrada em níveis associados à última fase de utilização do templo da Idade do Ferro detectado nas traseiras da Praça da República (Beja); coexistiu com as novas estruturas augustanas. Testemunha que os Romanos encontraram o touro já como entidade divina/totémica da cidade. Fonte: André Tomé.1
Cabeças de Touro romanas — síntese
André de Resende (1593, As Antiguidades da Lusitânia) referiu 10 cabeças de touro em Beja; hoje são conhecidas 5. As cabeças de mármore (de Trigaches), datadas do final do séc. I a.C./I d.C., fariam parte da “síntese decorativa do fórum e seus edifícios” (Forum de Pax Iulia) — segundo Conceição Lopes e Leonel Borrela: friso angular ou chave de fecho de arco da entrada monumental do Fórum.1
Localização conhecida das cabeças:
- Galeria exterior do Museu Rainha D. Leonor (2 cabeças): provêm da abside demolida da Igreja de S. João Baptista, orientadas para a Rua do Touro
- Reservas do município: 700 kg, mármore de Trígaches, encontrada em 2005 na Rua do Touro (n.ºs 13–15), na 2.ª descoberta nessa rua (Borrela, Diário do Alentejo, 2011)
- Torre sineira da Igreja de Santa Maria da Feira: cabeça romana; possível sítio de edifício religioso da Antiguidade Tardia → sucedida pela Mesquita Islâmica
- Torreão da muralha medieval, Parque Urbano Vista Alegre (paralelo à rua Capitão João Francisco de Sousa): material romano reutilizado na muralha
- Uma cabeça noticiada por Borrela na Praça de Armas do Castelo (rasto perdido)
Frei Manuel do Cenáculo (bispo de Beja) referiu as cabeças de touro para defender a fundação fenícia da cidade: “armas de Beja compostas de hum navio e huma cabeça de Toiro; sinal de agricultura e commercio marítimo”. Lamentou que muitas peças se encontrem no Museu de Évora em vez de Beja.1
Brasão de armas da cidade
O brasão actual surge do parecer de Affonso de Dornellas aprovado em 1928 (pela Assoc. Arqueólogos Portugueses) e adoptado pelo município em 1937/1938 (com alguma polémica). Em 1944 voltou a ser agitado na imprensa local (Diário do Alentejo) — Diogo Francisco Pereira de Castro e Brito chamou a atenção da CMB para o descoberta do selo medieval da cidade por Silva Marques (Fac. Letras de Lisboa) no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.1
Lenda do Touro e da Cobra
Conto popular: quando o local onde hoje está Beja era um pequeno povoado (sem nome romano ainda), uma serpente gigante aterrorizava a região. Um habitante teve a ideia de envenenar um touro e enviá-lo à floresta; a cobra devorou-o e morreu envenenada. O Touro como símbolo fundacional da cidade — sacrifício apotropaico.1
Rua do Touro — nobreza medieval
A Rua do Touro foi, na Idade Média, “a mais nobre” da cidade, estendendo-se desde a Praça da República (Beja) até às Portas de Mértola (eixo principal do Fórum Romano). No final do séc. XV/início séc. XVI residiam aí, entre outros: D. Brites (a Duquesa), o seu físico pessoal António (Mestre) Bom Dia, a sua donzela e secretária D. Isabel de Sousa, Leonel Rodrigues, escudeiro do infante D. Fernando e cavaleiro da Ordem de Cristo, João da Maia (tabelião), Rui Diaz e João Bocarro (escudeiros). Fonte: Conceição Lopes.1
Jorge Vieira e o Touro (séc. XX)
Jorge Vieira (1922–1998), escultor neo-realista, surrealista e abstracto — o touro é elemento central da sua obra (ferro e barro). Doou parte do espólio à cidade de Beja; existe Casa-Museu Jorge Vieira na Praça de Armas do Castelo. Em Fev. 2023 a CMB organizou o colóquio Os Touros que Habitam as Cidades de Beja (exposição Memória e mitos — O Touro na obra de Jorge Vieira, Centro de Arqueologia e Artes), com comunicações de André Tomé, Ana Margarida Arruda e Conceição Lopes.1
Como citar
Ferreira, B. (2023–2024). Os Touros de Beja. O Atual — Informação de Verdade. https://oatual.pt [artigo de divulgação]
Fontes relacionadas
- Cabeças de Touro de Beja
- Rua do Touro — a rua dos touros
- Forum de Pax Iulia — contexto do fórum
- Infanta D. Beatriz — habitante da Rua do Touro
- Mariana Alcoforado — família na Rua do Touro
- Igreja de Santa Maria da Feira — cabeça de touro na torre