A Igreja de Santo Amaro (Leonel Borrela, 1996)

Três artigos da Iconografia Pacense (Diário do Alentejo, Nov–Dez 1996) sobre a Igreja de Santo Amaro e os debates acerca da sua origem e cronologia.

Resumo

Artigo I — Descrição e debate cronológico

  • “De modesta aparência exterior, poucos são os visitantes a dedicarem-lhe alguma atenção” — mas a basílica é “invulgar, rara em toda a Península e única no nosso país”.
  • Estrutura: três naves de abóbadas plenas (as laterais ligeiramente rebaixadas), quatro longos tramos de arcos de volta inteira, assentes em “atarrascadas colunas de capitéis tardo-romana, visigótico/bizantina e, quiçá, muçulmana”.
  • Debate de cronologia: alguns investigadores situam a fundação nos séculos VI–VII (visigótica); outros, com base nos capitéis de feição muçulmana (ábacos do emirado de Córdova), propõem os sécs. IX–X (moçárabe). Borrela também equaciona a hipótese de ter funcionado como mesquita entre os sécs. X–XII.
  • A reentrância semicilíndrica da abside lembra a qibla (direcção de Meca).
  • No mesmo local da Igreja de Santa Maria da Feira haveria anteriormente uma mesquita, e antes desta a Sé visigótica — o reaproveitamento de elementos arquitectónicos das várias fases é defendido por Borrela.

Artigo II — Planta, capitéis e a tese de Cláudio Torres

  • Planta: os absidíolos (C) são maiores que a própria ábside/capela-mor (A) — situação rara e “inestética”, explicada talvez porque a ábside conservou a arca tumular de um cavaleiro de D. Dinis.
  • Inscrição da arca tumular na ábside: “ERA: DE: MIL: CCC: LXVII: ANOS: JAZ: IOANE: MEENDES: QUE FOI: GARDA: DEL REI: DOM DENIS: E SEU: DECRIÇON: E PASOU: DIA: DE SAN: BENTO: DOSE: DIAS DO: MES DE JULHO: DEUS: SE AMERCEE: DA SA: ALMA: AMEN” — “guarda del rei dom Denis”.
  • Cláudio Torres situa Santo Amaro como templo moçárabe dos sécs. IX–X: a similaridade técnica e formal dos ábacos do emirado cordovês “denuncia uma construção alicerçada em estruturas mais antigas visigóticas ou paleocristãs”.
  • Capitéis identificados: (1) tardo-romanos; (2, 4, 5) visigóticos; (3, 6) árabes/muçulmanos.
  • O Convento de S. Francisco foi instalado sobre uma necrópole romana extramuros (Portas de Mértola) — paralelo à possível necrópole romana às portas romanas de Évora.

Artigo III — Invocação, paroquialidade e interpretação histórica

  • As devoções sucessivas da igreja: Jesus (mais antiga conhecida, séc. XV) → Santa Maria da GraçaSanto Amaro (data da transição incerta). O Largo ainda era “arrabalde da Senhora da Graça” no séc. XIX.
  • Relação com a paróquia de S. Tiago: quando o rei D. Fernando I mandou edificar uma nova paroquial intramuros (1372), a sede provisória pode ter sido Santo Amaro. Opinião de Diogo F. Castro e Brito (parecer de 14 Ago 1947): dúvida quanto à transferência da paroquial para a nova Igreja de S. Tiago.
  • Na vista geral de Beja quinhentista (fólio 9.º da genealogia do Infante D. Fernando, anterior a 1530) é visível uma “construção grandiosa, no género de uma abside gótica” à esquerda da Torre de Menagem — possivelmente a nova Igreja de S. Tiago mandada edificar por D. Fernando I em 1372, que sofreria reedificação sob domínio filipino (estilo maneirista).
  • Conclusão: “A génese de Santo Amaro pode estar numa basílica paleocristã ou num templo visigótico; num edifício moçárabe ou numa mesquita e, porque não, numa igreja ducentista…”

Entidades mencionadas

Locais: Igreja de Santo Amaro · Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja · Igreja de Santa Maria da Feira · Convento de S. Francisco · Porta de Évora · Igreja de S. Tiago · Torre de Homenagem

Pessoas: Cláudio Torres · D. Dinis · D. Fernando I (rei) · Diogo F. Castro e Brito

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Como citar

Borrela, Leonel (1996). A Igreja de Santo Amaro (I, II e III). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense, Nov–Dez 1996.

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