A Vida Cultural em Beja na 2.ª Metade do Século XIX: Do Teatro Provisório ao Teatro Pax-Júlia (Maria J. P. Nunes, 2002)

Artigo publicado na revista Ler Educação (ESE de Beja, 2002). Estuda a vida teatral em Beja na segunda metade do século XIX, desde as primeiras tentativas de construção de um edifício até à inauguração do Teatro Pax-Júlia em 1928. Fontes principais: jornal O Bejense (1860–1897) e Actas da Sociedade Theatral Bejense.


Contexto nacional

  • 1836 — Almeida Garrett encarregado por Passos Manuel de fundar um Teatro Nacional; criação da Inspecção Geral dos Teatros e do Conservatório Geral de Arte Dramática
  • 1846 — inauguração do Teatro D. Maria II (Lisboa)
  • 2.ª metade séc. XIX: a política cultural da Regeneração estende-se ao teatro; difusão da arte dramática por todo o País
  • Drama romântico → declínio a partir de meados do séc. → drama social (intenções humanitárias e didácticas; função política)
  • Autores em cena em Beja: Mendes Leal (Pedro, o homem de ouro; Os homens de mármore), Biester, Garrett, Pinheiro Chagas (Morgadinha de Valflor, 1869 — marca o fim do teatro romântico em Portugal)

A luta pelo Teatro em Beja (1860–1928)

Primeiros passos (1860–1866)

  • 1860 — primeiras alusões na imprensa: «O teatro esse ornamento da civilização […] não existe em Beja […]» (O Bejense, n.º 18, 1860)
  • Iniciativa da Sociedade de Socorros Mútuos dos Artistas Bejenses (fundada c. 1860; quota: 50 réis semanais), com apoio do Governador Civil
  • 25 de Agosto de 1866 — início das obras do Teatro Bejense

Construção lenta (1866–1926)

  • Financiamento por subscrição pública: donativos das récitas, venda de pastos de ferragiais, bazares, quotas de sócios
  • Associação Construtora como entidade gestora da construção
  • 1880 — decorridos 20 anos, obras ainda em ritmo lento
  • 1876 — Estatutos da Sociedade Theatral Bejense, Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada
  • Governo não subsidia significativamente os teatros de província; apenas o S. Carlos recebia apoio estatal (crítica de Eça de Queirós)
  • 1926 — Sociedade entrega o Teatro à firma Castelo Lopes Lda., que assume a conclusão das obras (interior e exterior)

Nome e inauguração

  • Na Assembleia Geral, nomes propostos: Gil Vicente · Castilho · Garrett · D. João da Câmara · Teatro Bejense
  • Votação nominal: maioria para “Teatro Bejense”, mas por acordo substituído por PAX-JÚLIA (referência ao nome romano da cidade)
  • 19 de Dezembro de 1928 — inauguração pela actriz Ilda Stichini, “Glória do Teatro Português”
  • Placa de inauguração:

    TEATRO PAX-JÚLIA / Inaugurado em 19 de Dezembro de 1928 / Pela Insigne Artista / ILDA STICHINI / Glória do Teatro Português

Vida posterior

  • 2 de Janeiro de 1952 — reinauguração como Cine-Teatro Pax-Júlia pela Companhia Amélia Rey Colaço / Robles Monteiro (Teatro Nacional D. Maria II); peça: O amor precisa de escola; 1211 espectadores pagantes
  • Exploração cinematográfica dada à empresa Sacil/Filmes Luso-Mundo
  • 2 de Novembro de 1990 — último espectáculo não cinematográfico: fadista Gonçalo da Câmara Pereira
  • Em 2002 (data do artigo): edifício em obras de restauro e readaptação

O público bejense no teatro

  • Composição social: burguesia citadina (bacharéis e doutores, proprietários e lavradores ricos, comerciantes)
  • Preços (1860s): camarotes 720–1260 réis; plateia 160 réis; galerias 100–120 réis → acessíveis apenas a determinado grupo social
  • Espectáculos às 4.ª e 5.ª feiras e domingos
  • Público descrito como “illustrado”, “cavalheiros de brio”, “hospitaleiro”, atento e crítico
  • Reacção ao mau espectáculo: na noite seguinte, plateia quase vazia (ex. de voz desafinada, O Bejense, n.º 292, 1866)
  • Nas récitas de inauguração (1928): 1261 espectadores dos 1300 possíveis

Teatro provisório — locais utilizados antes de 1928

Enquanto o edifício permanente não existia, os espectáculos realizavam-se em vários locais da cidade:

  • Convento de S. Francisco
  • Sala da Escola Normal, no Largo do Salvador
  • Rua da Moeda
  • Casa de António Inácio de Sousa Porto (tipógrafo)

Companhias e peças em cena (1860–1866)

Companhia / ArtistasTipoNotas
Companhia Dramática Viúva LopesNacionalOs homens de Mármore, Uma Chávena de Chá, A Probidade
Monteiro (actor), Mendes LealNacionalO homem de Ouro, As Alfaias da Rainha
Sociedade Dramática Artística Bejense (“Curiosos”)Amadores locaisPresidida pelo Sr. Tello; Morgadinha de Valflor, O Sabonete Imperial
Companhia Espanhola Dramática LíricaEstrangeiraZarzuelas
Companhia Hespanhola de ZarzuelaEstrangeiraEl Diablo en el poder, D. Juan Tenorio
Artistas Italianos (Filibert, Blanca Belochio, Enrichetta Lauretti)EstrangeiraSoirée Musical; activos no Real Teatro S. João do Porto
Irmãos MunnésEstrangeiraConcertos lírico-dramáticos; muito aplaudidos

Drama social predomina: factos da História portuguesa, questões como “O fim do Antigo Regime”, “A Criação de uma nova Aristocracia do Dinheiro”, “A Organização dos Trabalhadores”.


Vida cultural associativa


Fontes primárias utilizadas

  • O BejenseJornal de Utilidade e Recreio, 1860–1897 (publicação bejense; principal fonte de informação sobre espectáculos)
  • Actas das Sessões da Direcção da Sociedade Theatral Bejense
  • Estatutos da Sociedade Teatral Bejense (1876)

Entidades mencionadas

Locais

Pessoas

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Como citar

Referência (APA): Nunes, Maria Joaquina Pinto (2002). A vida cultural em Beja no séc. XIX – o Teatro Pax-Júlia. Ler Educação, 2.ª série, (2), 163-174.

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