Pax Iulia, Felicitas Iulia, Liberalitas Iulia (António M. Faria, 2001)
Artigo publicado na Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 4, n.º 2, 2001. Retoma a questão da cronologia e autoria da atribuição dos estatutos jurídico-administrativos às três cidades do Ocidente hispânico que receberam cognomenta baseados em Virtutes associadas à gens Iulia:
| Cidade | Titulatura | Estatuto |
|---|---|---|
| Beja | Pax Iulia | Colonia |
| Lisboa | Felicitas Iulia Olisipo | Municipium (cidadãos romanos) |
| Évora | Liberalitas Iulia Ebora | Oppidum Latii antiqui → Municipium (~12 a.C.) |
Tese central
A atribuição das titulaturas e estatutos às três cidades ocorreu na mesma conjuntura política, entre 31 e 27 a.C., imediatamente após as vitórias de Octaviano sobre Marco António (Áccio, 31 a.C.; Alexandria, 30 a.C.) — não no período cesariano.
“[A concessão dos cognomenta] constitui uma das materializações do ideário político traçado por Octaviano enquanto único e verdadeiro depositário da herança de Júlio César, entretanto divinizado.”
Pax Iulia — fundação e cronologia
Posição de Faria: fundação octaviana (31–27 a.C.)
Três premissas:
- O nome — Pax Iulia integra-se no contexto ideológico subsequente à batalha de Áccio; tem dois paralelos atribuíveis à mesma conjuntura (colónias norte-africanas, 31–27 a.C.)
- A tribo Galeria — a adscrição dos cidadãos à tribo Galeria é indicador de fundação augustana (não cesariana)
- Moedas — cronologia provável das emissões monetárias de Pax Iulia: 31–27 a.C., cunhadas logo após a deductio comemorativa
O debate: César vs. Octaviano/Augusto
Faria lista os defensores de uma fundação cesariana, entre eles: Encarnação (IRCP), Vasco Mantas (1987), Richardson, Saquete, MacMullen, García y Bellido — e rebute cada um:
- O cognomen Iulia por si só não prova a intervenção de César
- A tribo Galeria contradiz uma fundação cesariana
- Canto e García y Bellido propõem uma solução intermédia: César funda um acampamento / cidade de direito latino; Augusto eleva a colónia — também refutada por Faria
Pax Augusta (Estrabão 3.2.15)
A referência de Estrabão a Pax Augusta (em vez de Pax Iulia) é interpretada por Faria como um lapso natural do geógrafo de Amásia, não como evidência de uma segunda fundação ou mudança de nome. Não contradiz a cronologia 31–27 a.C.
Moedas de Pax Iulia
- Figura feminina nos reversos (legenda PAX IVL) = personificação da Pax (Faria, 1989a)
- Refuta a identificação com a Felicitas proposta por Ripollès (RPC I), e a identificação com divindade local proposta por Gomis
- Llorens (2000) sugere que Pax Iulia emitiu apenas uma série de asses e só depois de se tornar capital de conventus
Felicitas Iulia Olisipo (Lisboa)
- Estatuto municipal (municipium de cidadãos romanos) atribuído entre 31 e 27 a.C.
- Cognomen Felicitas associa-se a Octaviano como herdeiro de César
- Faria critica sucessivas posições de Vasco Mantas sobre a cronologia (1996, 1998, 1999) — considera que a sua argumentação é contraditória
- Adscrição à tribo Galeria = argumento decisivo para datação augustana
Liberalitas Iulia Ebora (Évora)
- Estatuto: oppidum Latii antiqui/veteris Latii (Plin. nat. 4.117) entre 31 e 27 a.C.
- Elevação a municipium: provavelmente 12 a.C. (Faria, 1995a; confirmado por numária comparada com Ercauica e Ilunum)
- A moeda eborense com contramarca D(ecreto) D(ecurionum) prova que já era município antes dos Flávios
- Refuta a identificação como colónia (García-Bellido, 1998; Arribas, 1999)
Contexto ideológico mais amplo
Outras cidades da Hispania Ulterior receberam titulaturas afins (Claritas Iulia, Concordia Iulia, Constantia Iulia, Valentia Iulia, Virtus Iulia) e três colónias norte-africanas (31–27 a.C.) seguiram o mesmo padrão.
O clipeus virtutis oferecido a Augusto em 27 a.C. contém apenas Virtus e Pietas — mas antes de 27 a.C., Octaviano usava o nome Imp. Caesar Diui filius, e a propaganda associava-lhe um leque mais amplo de virtudes. As titulaturas urbanas são parte desse sistema de legitimação.
Entidades mencionadas
Locais / Cidades
- Pax Iulia — Roma em Beja · Porta de Évora (Liberalitas Iulia Ebora = Évora)
Pessoas
- António M. Faria (autor) · Vasco Mantas · Jorge de Alarcão · José D’Encarnação (IRCP)
Temas
- Pax Iulia — Roma em Beja — cronologia da fundação e debate César/Octaviano
- Sociedade Pacensis — estatuto colonial e moedas
Documentos relacionados
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — inscrição de Augusto à Colonia Pacis Iuliae (3–2 a.C.); directamente relevante para a questão da fundação augustana
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — debate sobre fundação (César vs. Octaviano); tribo Galeria; moedas; estatuto colonial
Como citar
Referência (APA): Faria, António Marques de (2001). Pax Iulia, Felicitas Iulia, Liberalitas Iulia. Revista Portuguesa de Arqueologia, 4(2), 351-362.
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roma pax-iulia fundacao augusto epigrafia numismatica lusitania beja