O Busto de Júlio César de Pax Iulia — Percursos e Debates em torno da Fundação de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2018)
Artigo de M. Conceição Lopes que revê e actualiza as suas próprias propostas de 2000/2003 sobre a fundação de Pax Iulia, à luz de novos achados arqueológicos (escavações no Conservatório/Reservatório de Água) e do reestudo do busto de mármore do Museu Rainha D. Leonor.
⭐ Documento de viragem: a arqueologia revelou em 2016 contextos urbanos de época republicana (meados do séc. I a.C.), o que reabre a hipótese cesariana da fundação — invertendo o consenso “augustano” que vigorava (e que Faria, 2001 defendia).
A revisão da fundação de Pax Iulia
- Até finais do séc. XX: Pax Iulia tida como fundação romana ex-nihilo, em tempo de Augusto
- Após 2000 (tese de Lopes): fundação augustana sobre um povoado indígena
- 2016: a arqueologia revela contextos urbanos e equipamentos de meados do séc. I a.C. (momento das guerras na Hispânia) → recoloca o debate em torno das promoções de César e do partido que Pax Iulia terá tomado nessas guerras
- Pax Iulia ganha assim contexto histórico republicano — antes inexistente — para acolher o busto
Os novos vestígios (projecto Arqueologia das Cidades de Beja, desde 2007)
Escavações cerca da Praça da República, no Logradouro do Conservatório e Reservatório de Água (iniciadas em 1997):
- Um edifício pré-romano bem preservado (em parte sob edifícios romanos)
- Um tanque/cisterna de 12,60 × 5,40 × 2,40 m (163 m³) — reforça a tese de que Beja se abasteceu de água sem aqueduto (ver Abastecimento de Água)
- O templo de Augusto — construção iniciada ao tempo de Tibério, a cota superior, preservando o tanque-cisterna anterior; certamente no fórum da cidade
- Crítica a Abel Viana (que não identificara a cisterna) e a propostas “irrealistas” (ruas lajeadas de mármore)
O Busto de Júlio César ⭐
O busto de mármore do Museu Rainha D. Leonor:
- Cabeça de homem de ~50 anos, realismo de expressão republicana; cicatrizes no lado direito da testa (corte de espada), orelhas danificadas
- História do estudo: Joaquim de Vargas; Salomon Reinach (datou-o de finais do séc. I d.C.); Leite de Vasconcelos (1903, descreveu as feridas)
- 2017: protocolo (CIMBAL, DRCALEN, CEAACP, Laboratório Hércules, Millennium) permitiu retirá-lo do nicho e observá-lo na totalidade — revelou que não era calvo, mas tinha uma curta cabeleira de ondas, e assimetria facial (boca descaída à direita)
- Comparação com o retrato-tipo de Tusculum (museu de Turim; achado em 1804) — semelhanças manifestas (rugas, covas do rosto, sulco nasolabial, penteado) → identificação com Júlio César
- Pelas dimensões, pertencia a uma estátua monumental, certamente no fórum
A questão de Conistorgis
Mantém-se a impossibilidade de identificar com segurança o povoado pré-romano de Beja com Conistorgis (capital dos Conii): segundo Jorge de Alarcão, Conii e Celtici individualizam-se cultural e espacialmente, e Beja ficaria à margem de ambos. Hipóteses em aberto (erro de uma fonte; realidades temporais distintas; zona de fronteira difusa).
Entidades mencionadas
Pessoas
- M. Conceição Lopes (autora) · Jorge de Alarcão · Abel Viana · Leite de Vasconcelos
Locais
- Busto de Júlio César de Pax Iulia · Templo Romano de Pax Iulia · Museu Rainha D. Leonor · Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo · Praça da República (Beja)
Temas
Documentos relacionados
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) e A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) — as posições anteriores da autora, aqui revistas
- Pax Iulia, Felicitas Iulia, Liberalitas Iulia (António M. Faria) — defendia a fundação augustana (31–27 a.C.); este artigo reabre a via cesariana com dados arqueológicos novos
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — a epigrafia monumental do fórum
Como citar
Referência (APA): Lopes, Maria Conceição (2018). O Busto de Júlio César de Pax Iulia.
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