Necrópole Romana da Estação de Beja (Leite de Vasconcelos e Sá, 1905)

Artigo publicado n’O Arqueólogo Português, Série 1, Vol. 10 (1905), pp. 165–169, em duas partes: a primeira por Leite de Vasconcelos; a segunda, um relatório de campo de Bernardo António de Sá, Condutor de Obras Públicas ao serviço do Museu Etnológico Português.


Contexto e descoberta

Em fins de Janeiro de 1905, o Engenheiro António Lourenço da Silveira, Director dos Caminhos de Ferro do Sul, informou Leite de Vasconcelos de que, durante desaterros junto à estação de Beja, tinham aparecido numerosas ossadas humanas, restos de sepulturas antigas e objectos arqueológicos. Pôs tudo à disposição do Museu Etnológico.

Leite de Vasconcelos enviou ao local Bernardo António de Sá para colher informações e proceder às escavações necessárias.1


Objectos enviados para o Museu Etnológico

  1. Arma de ferro (pugio?) — lâmina triangular com cabo revestível; extremidade em lâminas que formam espaço losângico; três pregos de fixação.
  2. Fragmento de inscrição funerária em mármore — placa com 3 linhas; apenas legível: an(norum) (linha 2), e(st) H(ic) s(itus) t(ibi) (linha 3). As cinco primeiras letras estavam revestidas de massa colorida — indício de inscrição pintada, fenómeno já documentado noutros monumentos.1
  3. Unguentário de vidro — gargalo estreito, bocal mais largo, bojo globular; foi encontrado dentro do vaso de barro (n.º 4).
  4. Parte inferior de vaso de barro avermelhado — estrias circulares; bojo semelhante a vasilhas arcaicas do Sul.

Relatório de campo (Bernardo António de Sá)

O terreno da necrópole era adjacente ao armazém de adubos, na estrada entre a estação e a cidade.

Sepultura intacta encontrada:

  • Forma de caixa rectangular em lâminas de mármore; dimensões: 1,85 m de comprimento × 0,50 m de largura × 0,56 m de altura.
  • Orientação nascente–poente; cabeça a poente (invertida por inundação).
  • Tampa totalmente fracturada; lâminas laterais quebradas verticalmente.
  • O cadáver foi inumado de costas com os braços estendidos; ossos das mãos encontrados à altura da bacia de cada lado.
  • Evidências de inundações repetidas: sedimentos e marcas de lama a várias alturas nas lâminas.
  • Coberta por cinco fiadas de grandes tijolos dispostos em corte transversal, a 0,80 m de profundidade, escavada na rocha.

Estado geral da necrópole:

  • Descrita como “vasta” — muitas sepulturas idênticas, de inumação, sensivelmente com a mesma orientação.
  • A maioria tinha sido destruída durante os trabalhos de construção da linha férrea e da estação; as lâminas de mármore foram reutilizadas para lajeamento de pátios.
  • Referências vagas a panelas de barro com cinzas e ossos calcinados — possíveis enterramentos de cremação misturados com os de inumação.
  • Exploração complementar durante quatro dias não revelou mais peças — o terreno estava já anteriormente revolvido.

Relação com outros achados na mesma área

Os vidros romanos publicados em 1902 (Vol. 7) foram igualmente achados “junto da estação dos caminhos de ferro” — possivelmente pertencentes à mesma necrópole ou às suas imediações. As sepulturas de tijolo forrado (de 1896) na Ao-Pé-da-Cruz integram-se no mesmo padrão de necrópole periurbana de Pax Iulia.


Entidades mencionadas

Locais: Necrópole da Estação de Beja · Museu Rainha D. Leonor · Pousada de S. Francisco — Necrópole Romana

Pessoas: Leite de Vasconcelos · Bernardo António de Sá

Temas: Necrópoles de Beja · Pax Iulia — Roma em Beja · Epigrafia Romana de Beja


Documentos relacionados


Como citar

Leite de Vasconcelos, J., & Sá, B. A. de. (1905). Necrópole romana de Pax Iulia (Beja). O Arqueólogo Português, 10, 165–169.

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romano necropole beja arqueologia

Footnotes

  1. Leite de Vasconcelos, J., & Sá, B. A. de. (1905). Necrópole romana de Pax Iulia (Beja). O Arqueólogo Português, 10, 165–169. 2