Novos Dados para o Conhecimento da Villa Romana de Pisões (Miguel Serra, 2007)

Artigo de Miguel Serra sobre o acompanhamento arqueológico do Projecto de Electrificação da villa romana de Pisões. Os trabalhos, dirigidos cientificamente pelo autor e por Eduardo Porfírio, acompanharam a abertura de uma vala ao longo do caminho de terra e da vedação do sítio, sob responsabilidade da Direcção Regional de Évora do IPPAR.

Localização

O artigo situa a estação arqueológica na Herdade do Almocreva, junto ao Barranco de Pisões, a cerca de 7 km de Beja. A bibliografia mais antiga localiza o núcleo conhecido na Herdade de Algramaça, integrada no conjunto das Herdades de Almocreva. As duas designações documentam escalas ou parcelas rurais associadas ao sítio, sem que o artigo delimite a relação fundiária entre elas.

A faixa intervencionada encontrava-se muito alterada pela antiga linha férrea, pelo caminho, pela vedação, por infraestruturas de saneamento e pelos trabalhos agrícolas.

Sondagens arqueológicas

Foram abertas três sondagens de 4 por 1 m:

  • A sondagem 1, junto à entrada do centro de interpretação, revelou aterros modernos ligados à antiga linha férrea, sem vestígios arqueológicos significativos.
  • A sondagem 2, perto do portão de acesso à barragem, identificou outro troço do canal de abastecimento. A estrutura encontrava-se abaixo da profundidade prevista para a obra, com a parte superior da abóbada muito danificada. O interior distinguia-se pelo sedimento cinzento e a infiltração de água dificultou a observação. Uma base de terra sigillata hispânica com marca ilegível apareceu num nível revolvido e não permite datar o canal.
  • A sondagem 3 foi aberta depois de surgirem estruturas durante a escavação da vala. Cerca de 0,5 m abaixo da superfície foi identificada a estrutura 2, a cerca de 100 m do núcleo central actualmente conhecido.

Estrutura periférica

A estrutura 2 conserva um muro com cerca de 0,6 m de largura, formado por uma fiada exterior de tijolos e outra interior de xisto local. Foram ainda observados um possível piso de circulação feito com lateres e tegulae e um derrube de cobertura com lateres, tegulae e imbrices.

Os materiais recolhidos na limpeza incluem cerâmica de construção, um fragmento de placa de mármore local, cerâmica comum, dois fragmentos de terra sigillata e restos faunísticos. Como procedem do enchimento e não de uma camada de utilização conservada, apenas sustentam uma atribuição provável à época romana.

Miguel Serra admite três possibilidades: uma dependência da pars rustica ou da pars frumentaria, uma construção pertencente a uma ocupação anterior ao século I, ou outro tipo de anexo da villa. Nenhuma destas interpretações ficou demonstrada.

Valas e materiais

Nas quatro valas da obra, com cerca de 211 m de extensão total, surgiram materiais romanos dispersos, sobretudo cerâmica de construção. Entre os achados contam-se fragmentos de tegulae perfurados, parte de um dolium, cerâmica comum, terra sigillata, opus signinum e restos faunísticos. Alguns depósitos estavam misturados com cerâmicas vidradas modernas e contemporâneas.

Junto às fundações de um poste eléctrico apareceu um elemento de mármore de Trigaches, possivelmente pertencente a uma ombreira ou verga. A peça foi depositada no centro de interpretação da villa.

Sistema hidráulico

O novo troço do canal reforçou a necessidade de estudar em conjunto a barragem e as estruturas de água da villa. O artigo inventaria poços, colectores, condutas, lagos de fontes, esgotos, piscinas, a grande natatio, as termas e canalizações de chumbo.

Este sistema abastecia os espaços residenciais e termais, mas seria igualmente importante para a economia agro-pastoril do estabelecimento. O autor propõe uma abordagem integrada comparável à realizada em São Cucufate.

Conservação

O traçado da vala eléctrica foi desviado para não destruir a estrutura periférica. Depois do registo arqueológico, os vestígios foram cobertos com geotêxtil e areia. O troço do canal também foi protegido antes da conclusão da obra.

Documentos relacionados

Villae de Pisões - Notícia de Descoberta (O Arqueólogo Português, 1967) · Villa Romana de Pisões (Isabel Mendonça, 1993) · Villae Romanas do Território Pacense

Como citar

Serra, Miguel (2007). “Novos dados para o conhecimento da Villa romana de Pisões (Beja)”. Vipasca - Arqueologia e História, n.º 2, 2.ª série, pp. 503-507.

Tags

Água Arqueologia Mundo rural Romano