Ara Funerária de Asínia Priscila (Rafael Alfenim, 1988)
Artigo de Rafael Alfenim, publicado como inscrição n.º 118 do Ficheiro Epigráfico n.º 26, sobre a ara funerária encontrada junto ao Castro dos Ratinhos, no concelho de Moura. O epitáfio identifica Asínia Priscila como Pacensis, estabelecendo uma ligação directa, embora interpretativamente cautelosa, a Pax Iulia.
Achado e conservação
- Ara funerária de mármore branco da região.
- Encontrada junto ao Castro dos Ratinhos, na freguesia de São João Baptista, concelho de Moura.
- Guardada, à data da publicação, no Museu Municipal de Moura, com o número de inventário 1561.
- O monumento está truncado e perdeu a base.
- O capitel apresenta frontão triangular ladeado por dois toros; a face anterior foi picada.
- O campo epigráfico é envolvido por uma moldura rectangular parcialmente mutilada no lado esquerdo.
- A decoração lateral inclui dois festões verticais com duas bolas cada, no lado direito, e um jarro, no lado esquerdo.
Dimensões e gravação
- Monumento: 68,5 x 24,5 x 18,5 cm.
- Campo epigráfico: 31,4 x 12,7/13,5 cm.
- Letras: entre 2,5 e 3,7 cm.
O texto foi distribuído regularmente, com alinhamento à esquerda e tentativa de centrar as fórmulas inicial e final. A quinta linha ficou comprimida por falta de espaço. A gravação usa capitais actuárias, pontuação triangular irregular e letras A sem barra horizontal.
Texto e tradução
A leitura proposta começa pela fórmula funerária:
D(iis) M(anibus) S(acrum) / ASIN(ia) PR/ISCILLA / PAC(ensis) C(oniux?) R(arissima?) AN/N(orum) XXXI / H(ic) S(ita) E(st) / A(sinius) H(onoratus?) V(xori) P(iissimae) P(onendum) C(uravit) / S(it) T(ibi) T(erra) L(evis)
Na tradução do autor, o monumento foi consagrado aos deuses Manes e assinala a sepultura de Asínia Priscila, pacense, falecida aos 31 anos. O marido mandou erigir o epitáfio à esposa.
O gentilício Asinius e o cognome Priscilla eram pouco comuns na epigrafia peninsular conhecida pelo autor. A restituição do nome do dedicante como Asinius Honoratus é apresentada como uma hipótese praticamente impossível de confirmar.
A ligação a Pax Iulia
A abreviatura PAC é interpretada como Pacensis. O sentido de C R permanece discutido:
- c(oniux) r(arissima), “esposa raríssima”, leitura adoptada na expansão principal e posteriormente em
AE 1989, 370; - c(ivis) R(omana), “cidadã romana”, hipótese preferida pelo autor;
- Pac(e) C(ivium) R(omanorum), desenvolvimento alternativo também considerado no artigo.
Segundo a segunda leitura, Asínia Priscila seria natural de Pax Iulia e afirmaria expressamente a cidadania romana. O próprio autor sublinha que a formulação é invulgar e apresenta a hipótese com reservas. O estudo posterior de Ortiz Córdoba mantém Pacensis como leitura segura, mas regista a divergência quanto às duas letras seguintes.1
A dedicação aos deuses Manes e a ausência do praenomen do dedicante levaram o autor a propor uma datação nos finais do século II.
Entidades mencionadas
- Pessoas: Rafael Alfenim · Asínia Priscila
- Locais: Ara Funerária de Asínia Priscila · Castro dos Ratinhos · Museu Municipal de Moura
- Temas: Ficheiro Epigráfico · Pax Iulia - Roma em Beja · Epigrafia Romana de Beja · Sociedade Pacensis
Documentos relacionados
- Colonização e Emigração em Pax Iulia (Ortiz Córdoba, 2020) - discussão posterior da origem, cidadania e mobilidade de Asínia Priscila.
- Epitáfio de Marco Júlio Avito (Manuela Alves Dias, 1983) - outro testemunho epigráfico de mobilidade associada a Pax Iulia.
- Fragmento de Cupa Epigrafado (Maria Miguel Lucas, 1988) - outro monumento funerário relacionado com Beja e conservado fora do concelho.
Como citar
Referência (APA): Alfenim, Rafael A. E. (1988). Uma ara funerária do Castro dos Ratinhos (Moura). Ficheiro Epigráfico, (26), inscrição 118, 3-5.