Restos Monumentais de Pax Julia I–X (Leonel Borrela, 1998)

Série de crónicas sobre os vestígios arquitectónicos romanos de Beja. O episódio VIII está em nota separada; o V/Va é uma edição dupla do mesmo artigo. O episódio III estava arquivado erroneamente como “2000” — data real: 1 Mai 1998.


I — Enquadramento histórico

Pax Julia era sede de um dos três conventus iuridici da Lusitânia (capital: Mérida), abarcando território até Scalabis (Santarém). Foi a descoberta da lápide da Herdade da Lobeira (séc. XVI), dedicada por Pax Julia ao imperador Cómodo, que trouxe a Beja romana ao conhecimento erudito. A inscrição figurou em todos os edifícios municipais desde então; em 1998 estava exposta no cimo da escadaria da Câmara Municipal de Beja.

Fontes setecentistas: Félix Caetano da Silva (História das Antiguidades de Beja), padre Pires Nolasco (memórias paroquiais), D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas — todos documentaram cabeças de touro, capitéis, fustes, frisos, escadarias, e as portas de Avis, de Évora e de Mértola. Cenáculo organizou o Museu Sisenando Cenáculo Pacense no antigo Colégio dos Jesuítas — um dos primeiros museus do género em Portugal; com as demolições oitocentistas a colecção ainda cresceu.


II — Capitéis coríntios

O Museu Regional de Beja possui cerca de 40 capitéis romanos (coríntios, compósitos, jónicos, dóricos; toscana não identificada). Os seis maiores coríntios: quatro na galeria exterior do Museu e dois de folhas lisas, respectivamente na ermida de S. Sebastião e no restaurante “Os Infantes”. O maior capitel coríntio clássico de Pax Julia, com acantos bem recortados e trespassados — “barroco romano” dos Flávios — teria c. 105 cm de altura completo com o ábaco.


III — Capitéis corintizantes e os de folhas lisas (1 Mai 1998)

Novos capitéis descritos neste episódio:

  1. Capitel corintizante de coluna (entrada no Museu em Junho de 1995, proveniente do muro exterior do edifício da GNR): 72 cm de altura; 70 cm de diâmetro; 95 cm de largura máxima. Uma coroa de folhas de que nascem outras que sobem para os extremos do ábaco e para o centro do cálice, divergindo sob duas grandes flores de quatro pétalas.

  2. Capitel corintizante de folhas lisas — “Os Infantes”: 50 cm de diâmetro, 55 cm de altura, 80 cm de largura máxima. Destinado a encimar coluna quase adossada (face posterior não trabalhada). Considerado por Borrela o melhor capitel de folhas lisas da cidade.

  3. Capitel de pilastra adossada (depósito da Ermida de S. Sebastião): 72,5 cm de altura, 70 cm de largura. Classificado como “das peças arqueológicas mais raras no país”.

  4. Grande capitel de coluna, fragmentado (em uso como alicerce na esquina da nave da Ermida de S. Sebastião, lado da epístola, próximo da capela-mor).

Contexto histórico da série: após a guerra civil do final dos anos 60 d.C., Vespasiano, com a generalização do direito latino, terá motivado obras monumentais em Pax Julia comemorativas da concessão de cidadania — é neste contexto flaviano que Borrela insere os grandes capitéis coríntios da cidade.


IV — O maior capitel de Pax Julia

Em 1982, nas obras do então café-concerto “Os Infantes” (Rua dos Infantes), descobriu-se o maior capitel romano da cidade — talvez o maior da Península e dos mais originais ao nível do império. Trata-se de um capitel compósito/coríntio adossado (pilastra + meia coluna), em dois grandes blocos marmóreos: 1,90 m entre os ábacos, 1,75 m de profundidade, 1,00 m de altura. Apresenta os dois estilos nas faces respectivas: compósito (jónico + coríntio, criação romana) numa face, coríntio na outra. Os “espigões” indicam que se destinava a uma cela de ~80 cm de largura. Cf. também O Grande Capitel Adossado Compósito de Pax Ivlia (Leonel Borrela).


V — Terminologia e reconstituição

Agradecimento à professora Antonieta Ribeiro pelo seu inventário dos capitéis romanos de Beja — dissertação de mestrado em História de Arte da Antiguidade, Universidade Nova de Lisboa, Fevereiro de 1994. Esclarecimentos terminológicos (kalathos vs. cálice; origem das volutas compósitas). Dois outros capitéis compósitos de coluna no Museu articulam-se com o grande compósito/coríntio de “Os Infantes” pela altura, técnica de cinzelado e plástica. Inclui esboço de reconstituição do edifício a que pertenceriam.


VI — Capitéis jónicos e possível teatro romano

Na galeria interior do Museu (Quadra do Rosário), dois capitéis jónicos:

  1. Capitel jónico de pilastra adossada: decoração frontal; 17 cm profundidade, 62 cm largura, 31 cm altura; assente em bloco maior (73×31×27 cm) que se embutia na parede como mísula.
  2. Capitel jónico menor: base 34×34 cm, altura total 38 cm, largura máxima 54 cm; decoração em três faces, posterior inacabada.

O primeiro foi encontrado no espólio da demolição (final séc. XIX) da Capéla da Guia e das Portas de Avis no Terreirinho das Peças. Outro capitel jónico reutilizado como soleira de porta em casa da Rua da Guia (junto à muralha e torre que suporta o arco romano reconstruído em 1939).

Concentração de elementos jónicos nesta área → Félix Caetano da Silva (séc. XVIII) descrevia grandes construções, arcos, maciços de alvenaria, escadarias nesta zona muito inclinada → J. Alarcão sugeriu possível teatro romano aqui.


VII — Cornijas, aduelas e conclusão da série de capitéis

Na praça d’armas do castelo: grandes blocos marmóreos aparelhados (ombreiras de portas, aduelas, base fragmentada para fuste de 1 m de diâmetro). Na capéla de S. Sebastião: múltiplos fragmentos de cornijas e bases de colunas. Na galeria exterior do Museu: duas grandes cornijas fragmentadas (~1,20 m cada) — do mesmo edifício dos capitéis compósitos, c. séc. I ou início séc. II. Na galeria interior (Quadra do Rosário): aduela bem cinzelada em mármore de Trigaches/S. Brissos → indicando arco de ~2 m de diâmetro ou nicho para estátua de tamanho natural.

Borrela conclui: se este espólio fosse devidamente reunido e exposto (incluindo peças noutros museus), constituiria a maior colecção arqueológica do período romano em Portugal — tudo de achados fortuitos e escavações de emergência, sem escavações sistemáticas.


IX — Sachola de bronze de Almodôvar (desvio da série)

Este episódio diverge do fio condutor: descreve uma sachola (enxada pequena) de bronze encontrada nas mediações de Almodôvar e oferecida ao Museu Regional pelo amigo Vítor Piçarra. Borrela aproveita para uma reflexão sobre a história da agricultura e especulação fundiária. A classificação como “Restos monumentais de Pax Julia” é forçada — o objecto não é de Beja nem é monumental.


X — Ponte romana de Beringel

Das antigas pequenas pontes romanas que ligavam Beja às estradas do seu conventus, subsiste a Ponte de Beringel (“Ponte de Lisboa”) sobre o Rio Galego, a jusante de Beringel. Em 1998, a construção de uma barragem (relacionada com o Alqueva) ameaça a sua preservação — a água irá subir e as margens começarão a ceder.

Descrição: abóbada de berço semicilíndrica; ~130 aduelas (30 cm largura × 55 cm altura × até 1 m profundidade); flecha de 1,80 m; diâmetro de 3,6 m; extensão da abóbada 4 m; suportando 8–9 m de via. Blocos muito bem aparelhados. O extradorso começa a ficar descoberto (faltam 5–10 cm) — consolidação urgente.

Imediações de Beringel: escavações de emergência revelam uma villae junto à margem esquerda (terra sigillata, tegulae, imbrices, muros, canalizações). Também de Beringel: pequeno torso marmóreo de Vénus Anadyomene (3 faixas: as Três Graças; Vénus saindo das águas sobre touro ladeado de golfinhos + Cupido ladeado de Pothos e Hórus) — doada pelos proprietários ao Museu Regional de Beja.

Outras pontes romanas mencionadas: Chaves, Ponte de Lima, Amares, Vinhais, Marvão, Vila Formosa, Vila Ruiva; a de Horta del-Rei (muito refeita, na antiga estrada de Serpa); a de Porto Peles (mutilada).


Fontes e referências citadas

  • Ribeiro, A. (1994, Fevereiro). Capitéis romanos de Beja. Dissertação de Mestrado em História de Arte da Antiguidade. Universidade Nova de Lisboa.
  • Silva, F. C. da. (s.d.). História das Antiguidades de Beja. Ms. [séc. XVIII].
  • Borrela, L. (1983). [Sobre o capitel da Rua dos Infantes]. Diário do Alentejo.

Entidades Mencionadas

Museu Rainha D. Leonor · Câmara Municipal de Beja · Félix Caetano da Silva · D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas · Terreirinho das Peças · Porta de Avis · O Grande Capitel Adossado Compósito de Pax Ivlia (Leonel Borrela) · Antonieta Ribeiro · J. Alarcão · Vítor Piçarra · Ponte de Beringel

Fontes

Borrela, L. (1998). Restos monumentais de Pax Julia (I, II, IV, V, VI, VII, IX, X). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense.