Arqueologia Lusitano-Romana — Antiguidades de Pax Iulia e Inscrições (Leite de Vasconcelos, 1902)

Secção do artigo “Arqueologia lusitano-romana” de Leite de Vasconcelos, publicada n’O Arqueólogo Português, Vol. VII (Out.–Nov. 1902), pp. 241–248. A secção 3, “Antiguidades de Pax Iulia (Beja)”, reporta descobertas romanas na demolição das muralhas de Beja e publica quatro inscrições inéditas do Museu Municipal de Beja.


Contexto da descoberta

Em Dezembro de 1900, Joaquim de Vargas, conservador do Museu Municipal de Beja, informou Leite de Vasconcelos de que, durante a demolição de parte da muralha de Beja para construção do palácio das repartições públicas, tinham aparecido diversas antiguidades romanas: fragmentos de capitéis, frisos, fustes de colunas, uma cabeça de estátua em mármore e restos de pedras tumulares. Todos os monumentos deram entrada no museu.

Leite de Vasconcelos visitou Beja pessoalmente em Outubro de 1901 e pôde examinar os objectos. Obteve uma fotografia da cabeça de mármore por intermédio de Manoel Joaquim Duro.1

Cabeça de mármore romana

Encontrada no 2.º baluarte da 2.ª ordem de muralhas da cidade, metida na vedação do Convento da Esperança. Foi encontrada por um trabalhador e oferecida ao museu por Francisco António Vital (apontador de obras públicas); entrou no Museu Municipal de Beja em Fevereiro de 1900.

Salomon Reinach (arqueólogo francês) opinou por carta: “parece pertencer ao fim do séc. I d.C.; pelo processo do trabalho lembra os bustos de Corbulão do Louvre, mas não representa nenhuma personagem conhecida.”1


Inscrições publicadas

Quatro inscrições inéditas do Museu Municipal de Beja, transcritas a partir de cópias e desenhos enviados por Joaquim de Vargas:

a) Mármore (86 × 47 × 27 cm): D.M.S. Q. Cassio Vettoniano, de Pax Iulia, de 26 anos de idade, está aqui sepultado. A terra te seja leve. — Cognome Vettonianus (dos Vetões) inédito em epigrafia ibérica.1

b) Lápide cupiforme de mármore: D.M.S. Julia Cleopatra, de 33 anos, está aqui sepultada. Herennio Prisco levantou este monumento à sua dedicadíssima esposa. — Campo da inscrição 120 × 21 cm.1

c) Lápide cupiforme de mármore: D.M.S. P. Oriclio consagrou este monumento à memória de sua dedicadíssima esposa Florica, filha de Agato, com quem fez vida comum durante 42 anos e 1 mês. — Nome Oriclio sem paralelo peninsular conhecido; Florica / Agathi de filiação grega.1

d) Cipo marmoreo encontrado próximo da Igreja do Carmo durante abertura de caboucos para edificação; trabalhadores destruíram a sepultura, salvando-se apenas o cipo: D.M.S. Julia Chrysida, de 23 anos, está aqui sepultada. A terra te seja leve. — Cognome grego Chrysida (“objecto de ouro”); possível liberta, tal como Julia Cleopatra.1


Entidades mencionadas

Locais: Museu Municipal de Beja · Convento da Esperança · Igreja do Carmo (Beja)

Pessoas: Leite de Vasconcelos · Joaquim de Vargas · Francisco António Vital · Manoel Joaquim Duro · Salomon Reinach

Temas: Pax Iulia — Roma em Beja · Muralhas de Beja


Como citar

Leite de Vasconcelos, J. (1902). Arqueologia lusitano-romana — Antiguidades de Pax Iulia (Beja). O Arqueólogo Português, 7, 241–248.

Tags

romano epigrafia beja

Footnotes

  1. Leite de Vasconcelos, J. (1902). Arqueologia lusitano-romana — §3. Antiguidades de Pax Iulia (Beja). O Arqueólogo Português, 7, 241–248. 2 3 4 5 6