Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade — A Igreja (Leonel Borrela, 1987)
Artigo de Leonel Borrela publicado no Arquivo de Beja, 2.ª série, volume IV (1987), pp. 93–103. Estuda a Igreja de Nossa Senhora da Piedade e a arquitectura do Hospital Grande, privilegiando os elementos gótico-manuelinos ocultos por reformas posteriores.
Introdução histórica
O Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade foi mandado erguer a partir de 1490 por D. Manuel, então terceiro duque de Beja (após 1491, príncipe-herdeiro; após 1495, rei). Tratou-se de uma obra pioneira da reforma hospitalar quatrocentista, concentrando dois pequenos hospitais anteriores: o Hospital dos Palmeiros (ainda em funcionamento) e o Hospital de São Brás (já desactivado), ambos no arrabalde, fora das Porta de Mértola.
Os documentos conhecidos foram dirigidos ao primeiro provedor, Antão de Oliveira, ao segundo provedor, Gonçalo Vaz, ao vedador das obras do dormitório para os pobres, Rui Pires, e ao desembargador Dr. Álvaro Fernandes, que elaborou o tombo dos bens do hospital.
A Santa Casa da Misericórdia de Beja foi instituída em 8 de Dezembro de 1500 na Igreja de Santa Maria. Devido à insuficiência das rendas do hospital, este foi entregue à administração da Misericórdia em 3 de Dezembro de 1554. A segunda metade do século XVIII marcou o início da decadência, agravada pelo terramoto de 1755, pelas invasões francesas, pelo liberalismo e pela desamortização decretada em 1866.
Algumas fontes impressas atribuem uma fundação anterior (1469) ao Infante D. Fernando, pai de D. Manuel — mas Borrela não encontrou no edifício qualquer brasão que a corrobore. A ausência de heráldica ducal (só existem brasões régios) é apontada como facto estranho, uma vez que na Conceição contemporânea se identificam brasões de D. Fernando, D. Brites e D. Manuel como duque. O grande valor do Hospital está em ser uma obra genuinamente de transição do gótico para o manuelino, a datar do final do século XV.
Exterior da igreja
A fachada nordeste do edifício hospitalar tem quatro janelas de lintel com arcos conopiais, no estilo gótico-manuelino. No seguimento desta fachada, para norte, situa-se a frontaria principal da Igreja de Nossa Senhora da Piedade.
O portal principal tem lintel e ombreiras moldurados e um frontão curvo interrompido — obra barroca do final do século XVII ou início do XVIII. Sobre o portal está um grande fecho de abóbada reutilizado, de 60 cm de diâmetro, para oito nervuras, com restos de pintura avermelhada da abóbada estrelada a que pertencia; contém o brasão de D. Manuel I. Borrela considera que este fecho provinha de uma das duas únicas construções bejenses que poderiam ter fechos desta natureza: o Convento de S. Francisco ou o Convento da Conceição.
Dois contrafortes de cantaria ladeiam o portal, com sinais de desbaste nas faces internas para dar passagem ao frontão mais largo. O portão de cantaria do eirado, com o brasão de D. Manuel e a esfera armilar, foi pago em 1849 a Eduardo dos Prazeres (e não em 1894, como a data de um pagamento distinto poderia sugerir).
O antigo cemitério dos pobres ocupava quase todo o eirado: segundo o auto de medição de 18 de Janeiro de 1681, media 26 varas de comprido por 22,5 varas de largo (aprox. 28,6 × 24,75 m).
Siglas e afinidades construtivas
Os contrafortes da igreja têm siglas de canteiro em bisel, semelhantes às dos contrafortes da capela-mor da Conceição, datados o mais tardar de 1495. A partilha de motivos decorativos entre os dois edifícios é extensa: arcos conopiais, mísulas, fechos, brasões de D. João II e D. Manuel I, “bexigas natatórias de peixe”, folhas de cardo, meias esferas, fitas helicoidais, cálices, cruzes, rosas e encordoados.
Interior da igreja
A nave é rectangular, de abóbada plena ligeiramente rebaixada e totalmente caiada: 10 × 7,8 m, altura 11,5 m. Três grandes telas “da escola italiana, talvez de Reinoso” precisam de restauro urgente. As paredes têm talha dourada barroca — proveniente da capela dos Terceiros de S. Francisco e da capela-mor da Igreja de S. Francisco, transferida em 1855 (provado por Borrela a partir de manuscritos de 1867/68 do padre José Inácio de Mira e dos livros de receita da Misericórdia). O frontal do altar-mor tem, no anverso, o símbolo de S. Francisco — sinal da sua origem franciscana.
O solo junto ao altar-mor conserva cerca de trinta azulejos de aresta sevilhanos, similares aos da Sala Capitular da Conceição.
Capela Mor de Nossa Senhora da Piedade (descoberta de 1986)
Por detrás do altar do Sagrado Coração de Maria, no lado do Evangelho, Borrela descobriu em Dezembro de 1986 (na presença de José Lourenço e de Francisco Alvito) uma capela-mor totalmente pintada a óleo, dedicada a Nossa Senhora da Piedade. A pintura cobre o arco cruzeiro, o altar-mor e o interior da tribuna; predominam azuis, vermelhos, amarelos, negros e dourados, com motivos de folhas de acanto e referências ao martírio de Cristo. Sobre o arco da tribuna e no tímpano da parede do fundo repete-se a inscrição: Qui vult venire post me, tolat crucem suam et sequatur me.
Esta pintura mural, pelo seu barroquismo, tem paralelo no altar de mármores embutidos de S. João Baptista na Conceição e nas pinturas da Sala Capitular do mesmo convento. Borrela data-a do final do século XVII; a talha dourada franciscana terá ocultado a capela em 1855.
Óculo gótico e elementos medievais
O auto de medição de 1681 mostra que a igreja original media 6,75 × 6 varas (contra as actuais 9 × 6,75 varas): a ampliação implicou demolir a abóbada original e construir uma nova, transversal à anterior, ocultando o óculo gótico da ábside primitiva (diâmetro exterior 1,4 m, entre dois contrafortes, um de alvenaria e outro de cantaria). O óculo tem quatro secções em “bexigas natatórias de peixe” de arcos ultrapassados. Borrela sugere que este óculo pode ser uma reminiscência da possível fundação de 1469 pelo Infante D. Fernando. No corredor de acesso à tribuna há ainda um nicho moldurado de toros e escócias, capitolizado com folhas de cardo, possivelmente o sacrário do antigo altar de cima.
Síntese cronológica
- 1490 — início das obras do Hospital Grande de D. Manuel (então Duque de Beja)
- 1491 — D. Manuel reconhecido como príncipe-herdeiro
- c. 1495 — conclusão provável da fase construtiva principal (com base nas siglas e heráldica)
- c. 1510 — conclusão do conjunto hospitalar
- 1681 — auto de medição; dimensões originais da igreja registadas
- Finais do séc. XVII / inícios do XVIII — portal barroco; capela Mor de Nossa Srª da Piedade pintada
- 1855 — talha dourada de S. Francisco transferida para a Igreja da Piedade
- 1849 — portão de cantaria do eirado
- Dezembro de 1986 — descoberta da capela pintada por Leonel Borrela
Como citar
Borrela, L. (1987). Hospital Grande de N.ª Sra. da Piedade — A Igreja. Arquivo de Beja, Série 2, 4, 93–103.
Fontes relacionadas
- Hospital de Nossa Senhora da Piedade
- Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição — A Igreja e a Capela Mor (Leonel Borrela) — artigo paralelo sobre a Conceição no mesmo volume II
- Hospital José Joaquim Fernandes — 50 Anos de História Falada (Florival Baiôa Monteiro, 2025) — história institucional