Ensaio sobre a Região de Beja em torno do Ano Mil a.C. — Entre a Tradição e a Inovação (Raquel Vilaça, 2014)
Capítulo de Raquel Vilaça no livro Idade do Bronze do Sudoeste (Coimbra, 2014). Ensaio sobre a região de Beja (os “Barros de Beja” / “Barros Pretos”) na transição do Bronze Final para a I Idade do Ferro (c. 1000 a.C.).
⭐ O documento mais recuado da base — recua até ~3000 anos, antes do oppidum da Idade do Ferro II que era até agora a camada mais antiga. Estabelece a pré-história imediata da futura Pax Iulia.
O sistema de povoamento do Bronze Final
A região revela um povoamento hierarquizado e diversificado que combina:
- Povoados de altura fortificados — concentram população; recintos muralhados de complexidade variável
- Sítios abertos de planície (“sítios de fossas”) — fossas, silos, lixeiras, fundos de cabana, buracos de poste; armazenamento, agricultura e metalurgia do bronze (não só os de altura trabalhavam o metal)
- O rio Guadiana como elemento estruturante (não fronteira) que unia as duas margens
- Posição “mesopotâmica” de Beja entre Sado e Guadiana, em rotas terrestres (já ecoadas por Avieno, Ora Marítima) ligadas aos recursos mineiros (ex.: Mina da Juliana, Beja)
O Outeiro do Circo ⭐ — o sítio central
O Outeiro do Circo (Mombeja/Beringel, concelho de Beja) é o povoado central do Bronze Final da região:
- ~17 ha — muito grande (mais próximo dos grandes povoados da Idade do Ferro do que dos do Bronze Final)
- Fabuloso sistema de muralhas, com entrada monumental marcada por dois bastiões circulares (vista aérea)
- “Guardião da planície” / “guardião do território” — marcador espacial de elevada carga simbólica
- Escavado por Miguel Serra e Eduardo Porfírio
- Abandonado no Bronze Final; na Idade do Ferro pode ter-se tornado “guardião do passado recente” — lugar de memória, ritualmente revisitado mesmo desabitado
- Sítios abertos contemporâneos próximos: Arroteia 6 (Mombeja, a ~1 km), Pisões 5 (Beja)
A origem de Beja
Quando o Outeiro do Circo foi abandonado, a colina onde hoje está a cidade de Beja terá assumido o papel de “cabeça” coordenadora do povoamento da Idade do Ferro:
- Ocupação tardia (2.ª metade do I milénio a.C.); primeira estrutura defensiva revelada na Rua do Sembrano (Grilo, 2007)
- Os testemunhos mais antigos de Beja podem recuar ao séc. VII a.C. (projecto Arqueologia das Cidades de Beja, M. Conceição Lopes, 2010)
- Diversas necrópoles dos séc. VII–VI a.C. a ocidente (contemporâneas dessa ocupação primeva)
O mundo funerário (Bronze Final → Idade do Ferro)
- Bronze Médio/Pleno: cistas (isoladas ou em necrópoles), fossas, hipogeus — ex.: Belmeque, Torre Velha 3, Outeiro Alto (todos Serpa)
- Bronze Final: predominam as fossas; cistas e hipogeus parecem cair em desuso
- I Idade do Ferro: “fabuloso mundo mortuário subterrâneo” perto de Beja — Palhais (Beringel), Vinha das Caliças, Cinco Reis, Carlota (ver Necrópoles da Idade do Ferro de Beja)
- Bi-ritualismo: coexistência de inumação e incineração (não uma sucessão linear)
- Herdade de Pomar (Ervidel, Aljustrel): “campo sagrado” com cistas (séc. XX–XVIII a.C.) + estelas decoradas do Bronze Final (espada, lança, escudo) — persistência milenar da paisagem sagrada
- “Conjunto cinerário” atribuído à região de Beja (Museu Didático de Coimbra; oferta de Gustavo Marques, 1969): vaso bitroncocónico, navalha de barbear, fíbula — transição Bronze/Ferro (séc. VIII–VII a.C.)
Metalurgia, ourivesaria e depósitos
A região integra-se nas redes de troca atlântico-mediterrânicas (não é marginal):
- Ourivesaria: anel da Trindade (Beja) tipo “Villena/Estremoz”; colar e bracelete de Baleizão; colar de Vila Nova de S. Bento; bracelete de Aljustrel
- Depósito de Baleizão — invulgar associação de bronze + ouro + conjunto de pesos de balança (ponderais) segundo o padrão sírio (~9,3 g) → controlo do metal e conexão a circuitos supra-regionais
- Espadas de Safara (“espadas irmãs”, possível depósito ritual aquático — “face atlântica”)
- Objecto do Pé do Castelo (Trindade, Beja) — decoração de inspiração sírio-palestina/cipriota/sarda
- Machados planos (persistência tipológica = “inovação que arrasta a tradição”)
Investigadores da arqueologia pré-romana de Beja
Abel Viana, Fernando Nunes Ribeiro, José Fragoso de Lima, Hermanfrid Schubart (definiu o conceito “Bronze do Sudoeste”; escavou a necrópole de Atalaia, Ourique), Rui Parreira, António Monge Soares; e, recentemente, Miguel Serra e Eduardo Porfírio (Outeiro do Circo).
Entidades mencionadas
Pessoas
- Raquel Vilaça (autora) · Miguel Serra · Eduardo Porfírio · Abel Viana · M. Conceição Lopes
Locais
Temas
- Idade do Bronze na Região de Beja · Necrópoles da Idade do Ferro de Beja · Pax Iulia — Roma em Beja · Necrópoles de Beja
Documentos relacionados
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) / A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) — o oppidum da Idade do Ferro II sob a cidade; a continuidade do povoamento até Pax Iulia
- Materiais Islâmicos do Sítio da Rua do Sembrano (Helena Casmarrinha) — a Rua do Sembrano, onde se revelou a primeira estrutura defensiva pré-romana de Beja
- Necrópoles de Beja — o longo arco funerário da cidade (Idade do Ferro → islâmico → romano)
Como citar
Referência (APA): Vilaça, Raquel (2014). Ensaio sobre a região de Beja em torno do ano mil a.C. In R. Vilaça & M. Serra (Coords.), Idade do Bronze do Sudoeste – Novas perspetivas sobre uma velha problemática (pp. 101-126). Instituto de Arqueologia da FLUC.
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