Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição — A Igreja e a Capela Mor (Leonel Borrela)
Artigo de Leonel Borrela publicado no Arquivo de Beja, 2.ª série, volume II (c. 1985). Estuda a igreja conventual do Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, com ênfase na edícula tumular de D. Fernando, 1.º Duque de Beja e na abóbada estrelada da capela-mor.
Fundação e estado de conservação
O mosteiro foi fundado no terceiro quartel do século XV pelo Infante D. Fernando, 1.º Duque de Beja, e pela sua mulher Infanta D. Beatriz, para beatas seculares ligadas ao Paço dos Infantes, na Ordem de Santa Clara. Das demolições de finais do século XIX restaram apenas a fachada da igreja, o interior, o claustro e a Sala Capitular — cerca de um quinto do conjunto original.
A grande fachada nordeste tem cerca de 50 metros de comprimento. Destaca-se a platibanda gótico-manuelina com três brasões do Infante D. Manuel como Duque de Beja, e o portal gótico flamejante com duas arquivoltas e arco conopial, brasonado pelos dois fundadores. A empresa em “Y” da Infanta D. Brites aparece no portal e em duas estátuas que encimam o remate da fachada. Na ábside, o brasão de D. Manuel sobrepõe colunas torsas sobre os contrafortes.
Edícula tumular do Infante D. Fernando
O Infante D. Fernando faleceu a 18 de Setembro de 1470 em Setúbal, onde foi sepultado provisoriamente no Mosteiro de S. Francisco da Observância. Os seus restos foram depois transladados para a capela-mor do Convento da Conceição.
A edícula tumular ocupa o primeiro tramo da capela-mor, do lado do Evangelho; tem 14 m² de área e uma abertura de 2,5 × 2,5 × 1,2 m. A arca actual — mármore da região de Alvito, estilo clássico, anepígrafe — é de fins do século XVI e não é a original. Quando D. Diogo, 3.º Duque de Beja morreu em 1484, foi necessário construir um novo túmulo; do primitivo restam fragmentos (registo F 63 do museu) identificados por Abel Viana como pertencentes à edícula fundadora. Dois escudos na edícula — que as descrições referem como “dos fundadores” — são, segundo Borrela, armas da Infanta D. Brites, não de D. Fernando.
Abóbada estrelada da capela-mor
A capela-mor guarda, por detrás da talha dourada barroca, uma abóbada de cruzaria de ogivas em dois tramos, com cerca de 13 metros de altura. Seis mísulas sustentam a estrutura; a nervatura foi pintada — azul, preto e verde-azeitona com realces a ouro — antes da aplicação da talha (barroco inicial, fins do século XVI / inícios do XVII). Um incêndio danificou parcialmente a pintura.
O elemento mais notável é a existência de cinco perfis de nervuras distintos conforme a função estrutural (arco cruzeiro, formeiros, terceletes, ligaduras) — singularidade que Borrela aponta como caso único em Portugal para este tipo de abóbada. O fecho gótico central ostenta a letra “M”, insígnia de D. Manuel.
Datação
Borrela data a obra entre 1491 e 1495: o limite inferior corresponde à morte do Príncipe D. Afonso (1491), a partir do qual D. Manuel passou a ser príncipe-herdeiro, surgindo a sua heráldica nesta qualidade; o limite superior corresponde à morte de D. João II (1495), após a qual D. Manuel tornou-se rei. João de Arruda foi enviado a Beja por D. João II em 1485 para avaliar casas que D. Beatriz pretendia adquirir junto do convento, sendo referenciado por Reinaldo dos Santos (O Manuelino, p. 36) como possível autor da obra.
Paralelo em Évora
A Igreja Real de S. Francisco em Évora tem disposição de nervuras semelhante, mas com todos os perfis iguais e maior pé-direito — sem a sofisticação estrutural da Conceição.
Como citar
Borrela, L. (c. 1985). Beja — Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição: A igreja conventual — A capela-mor. Arquivo de Beja, Série 2, 2.
Fontes relacionadas
- A Abóbada Nervurada da Capela-Mor da Conceição (Leonel Borrela) — artigo posterior sobre o mesmo tema, em Iconografia Pacense
- O Real Mosteiro da Conceição — A Sala Capitular (Leonel Borrela, 1986) — artigo contemporâneo sobre a Sala Capitular
- Convento da Conceição de Beja — Arquitectura num Período de Transição (Nicole Martins) — estudo arquitectónico geral