Beja nas Campanhas Militares Liberais — o 9 de Julho de 1833 (blog Pé de Balanço)
Artigo de divulgação histórica que narra o papel de Beja nas Guerras Liberais (1832-34) — em particular o assalto liberal à cidade em 9 de Julho de 1833 e a sangrenta desforra absolutista. Ver o tema 9 de Julho de 1833.
🔥 Um dos episódios mais trágicos da história moderna de Beja, e durante um século um símbolo cívico da cidade — depois apagado da memória pelo Estado Novo.
Contexto
Desembarque liberal do Duque da Terceira no Algarve (24 Jun 1833), após a vitória naval de Carlos Napier ao largo do Cabo de S. Vicente (5 Jul). A campanha estende-se ao Alentejo; Beja, de conhecido “ânimo liberal”, era estrategicamente cobiçada (carta de Bernardo de Sá Nogueira ao Duque da Terceira recomendando a sua ocupação).
O assalto de 9 de Julho de 1833
- Organizado a partir de Serpa (onde a rainha fora aclamada a 1 de Julho), por liberais bejenses fugidos
- Forças: voluntários de Serpa e o “corpo de Beja” sob o tenente-coronel Francisco Romão de Goes e o major Francisco José de Araújo Lacerda, + 50 franceses sob Fleury do Rego
- Concentração nas Vinhas da Salvada (~10 km); avanço pelo Tanque dos Cavalos ao amanhecer
- Combate pela cidade: os realistas entrincheiram-se na cerca do Convento de S. Francisco; luta na Igreja do Carmo, Rua de Santa Catarina (actual Rua da Liberdade) e na Estalagem do Vargas (Largo da Corredoura, actual Praça Miguel Fernandes); Romão de Goes liberta os presos políticos da cadeia na Praça D. Manuel I (actual Praça da República (Beja)); ferido na Rua do Touro / Rua da Conceição
- Assalto final pela Porta Nova (voluntários de Serpa, major Araújo Lacerda e capitão Saraiva de Alvito)
- Ocupação efémera: os liberais retiram-se nesse mesmo dia (17h) pela Quinta da Suratesta rumo a Serpa
A desforra absolutista (10-11 de Julho)
- O Visconde de Mollelos (realista) ocupa Beja a 10 de Julho; saque e terror
- 11 de Julho de 1833 — três liberais queimados vivos em fogueiras na Praça D. Manuel I:
- o padre Francisco Lopes Baião (Ordem de S. Francisco; as três irmãs obrigadas a assistir)
- o Dr. António Madeira (natural de Serpa)
- Joaquim de Santa Anna (bejense, sapateiro)
- Episódio do Dr. Parreira (advogado liberal), que escapou enrolado numa esteira; o postigo perfurado a tiro no Monte da Lobata conservou-se “in memoriam”
A memória do 9 de Julho
- Toponímia: o Largo e Rua 9 de Julho (fronteiros à Pousada de S. Francisco) — renomeados D. Nuno Álvares Pereira pela Câmara em 1949 (apagamento pelo Estado Novo)
- Jornal republicano local intitulado “9 de Julho” (1.º n.º a 9 Jul 1885); comemorações no Jornal do Povo (homenagem aos três mártires, 25 Dez 1875) e em O Bejense (1913-1932)
- Comemoração de 1877: o Regimento de Infantaria n.º 17 recriou os combates; soirée no Teatro Provisório pela Sociedade Dramática Artística Bejense
- Recompensa régia: D. Maria II restaurou o título de Duque de Beja no infante D. João (carta régia de 17 Abr 1842), em reconhecimento da lealdade liberal de Beja
Entidades mencionadas
- Pessoas: Francisco Romão de Goes · Francisco José de Araújo Lacerda · Visconde de Mollelos · Francisco Lopes Baião · António Madeira · Joaquim de Santa Anna · Duque da Terceira (nacional)
- Locais: Convento de S. Francisco · Convento do Carmo · Praça da República (Beja) · Porta Nova · Tanque dos Cavalos · Rua do Touro · Chafariz da Suratesta
- Temas: 9 de Julho de 1833 · Ducado de Beja · Sociedade Dramática Artística Bejense
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- Saque de Beja de 1808 — o episódio trágico análogo da geração anterior (Guerra Peninsular)
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — Beja poucos anos depois
Como citar
Referência (APA): Pé de Balanço [blog] (2020). Beja nas campanhas militares liberais – o 9 de Julho de 1833. saboia1952.blogspot.com