Do Espeto à Misericórdia de Beja (Leonel Borrela, 2006)
Continuação da crónica anterior sobre O Espeto de Ernesto de Carvalho (1914). Borrela transcreve e comenta as passagens sobre a Misericórdia de Beja, defendendo que o edifício é erroneamente designado “Misericórdia” quando é na realidade o Hospital Grande de N.ª Sra. da Piedade — instituição do Estado, apenas administrada pela Confraria.
A Igreja da Misericórdia: origem nos açougues de Infante D. Luís
A Irmandade da Misericórdia de Beja foi criada por carta régia de D. Manuel em 1500. Não tinha edifício próprio e estabeleceu-se na Igreja de Santa Maria da Feira.
O Infante D. Luís, Duque de Beja, mandou construir a obra dos açougues na Praça. Achando o edifício tão bem feito (“saísse ela tão lustrosa que fosse mal empregada em ofício baixo”), propôs convertê-lo em sede da Misericórdia. Carta dirigida à Câmara de Beja: “Eu mandei fazer a obra dos açougues dessa cidade como vistes, a qual parece que quis Nosso Senhor que saísse ela tão lustrosa que fosse mal empregada em ofício baixo, mas que se dedicasse a serviço seu…”. Carta apresentada na Câmara em 4 de Junho de 1550 e aprovada pelos vereadores. A Igreja da Misericórdia que hoje existe na Praça é portanto o edifício dos açougues, convertido nessa data.
O Hospital de N.ª Sra. da Piedade
Fundado por D. Manuel I em edifício erguido dos alicerces (Catálogo do Museu Arqueológico). Alvará de D. Manuel: previa 20 pobres em contínuo; orçamento anual de 9 moios de trigo; 5 réis de conduto/dia por pobre. Quadro de pessoal: capelão (2.000 réis/ano), provedor (6.000), enfermeiro (6.000 + 1 moio de trigo), cozinheira (3.000 + obrigação de administrar enemas), casal de escravos (80 alqueires de trigo + roupas). Em 1554 o Hospital passou à administração da Confraria da Misericórdia. Em 1914 (O Espeto): receita anual de ~7 contos; 50-60 doentes em dia normal; nas épocas de mondas e ceifas, muitos algarvios e “campaniços” em tratamento.
Borrela: o edifício é Monumento Nacional, estudado por Abel Viana, Túlio Espanca, Figueira Mestre, Raul Proença. Insiste que deve chamar-se “Hospital de N.ª Sra. da Piedade”, não “Misericórdia de Beja” (que é a Confraria, não o edifício hospitalar).
Fontes e referências citadas
- Carvalho, E. de. (1914). O Espeto. [pp. 215-217 sobre o Hospital]
- Viana, A.; Espanca, T.; Mestre, F.; Proença, R. — estudos sobre o Hospital
Entidades Mencionadas
Hospital de Nossa Senhora da Piedade · Igreja da Misericórdia de Beja · Infante D. Luís · D. Manuel I · Igreja de Santa Maria da Feira · Abel Viana · Túlio Espanca · Ernesto de Carvalho
Fontes
Borrela, L. (2006, 11 de Agosto). Do Espeto à Misericórdia de Beja. Diário do Alentejo — Alentejo Ilustrado — Iconografia Pacense. Carvalho, E. de. (1914). O Espeto. Beja.