A Igreja do Salvador (Leonel Borrela, 1995)

Duas crónicas da série “Iconografia Pacense” dedicadas à Igreja do Salvador, onde Borrela defende que o templo tem sido subvalorizado e apresenta as suas características arquitectónicas e artísticas.

Enquadramento histórico

Borrela cita o Guia Turístico de Beja (1950) (colaboração de Abel Viana, Cândido Marrecas, José Mourão, Manuel de Melo Garrido) e a Enciclopédia Diocesana (1961) de C.J. Gonçalves Serpa (já falecido).

  • Primeira menção documental: ano de 1300 (data da era: 1262) — carta de doação de Abril Pais, cónego da Sé de Évora, que se intitula prior de S. Salvador de Beja (documento do Arquivo do Cabido de Évora, 20/8/1300)
  • Confraternidades sediadas: S. José (carpinteiros, pedreiros), S. Crispim (sapateiros), Santa Luzia (alfaiates); em 1519, Confraria do Corpo de Deus; em 1544, Santíssimo Sacramento; Capelinha de S. Jorge nas traseiras
  • Sé episcopal provisória desde 1922 até à transição definitiva para S. Tiago em 1932

Arquitectura exterior (séc. XVII)

Localização: intra muros, lado nascente, perto das Portas de Moura (área da antiga mouraria). Construída na primeira metade do séc. XVII.

  • Planta: uma nave abobadada + transepto (com o lado da epístola desobstruído) + capela-mor
  • Torre sineira: escadaria de pião helicoidal (degraus assentados pelo lado menor) — paralelo com a Torre de Menagem do Castelo Real de Valongo (próximo de Montoito) e as escadarias do claustro de D. João III no Convento de Cristo (Tomar); a meia altura tem parapeito saliente com caixotões marmóreos
  • Janela maneirista no transepto (lado da epístola), com moldura e perspectivação maneirista
  • Sistema estrutural: contrafortes e arco-botantes que comunicam entre si na espessura da parede lateral da nave (visível no corte transversal desenhado por Borrela)

Interior — capelas e altares

Capelas laterais

Os arcos de cruzeiro são de volta inteira, com pés-direitos em mármore; conservam áreas importantes de pintura a óleo do séc. XVII e parte da azulejaria portuguesa da mesma época.

Altar do Evangelho (esquerdo) — maneirista

  • 8 pinturas a óleo sobre madeira (retábulo de grande dimensão)
  • Dedicado a S. Pedro (com imagem proveniente da demolida Ermida de S. Pedro, estrada de Serpa); a devoção anterior era a S. Bartolomeu (tema do retábulo)
  • Melhor capela em termos de conservação exterior e interior
  • Pintura trompe l’œil: motivos arquitectónicos, nichos com bustos, ornamentação vegetal

Altar da Epístola (direito) — barroco, Tetramorfo

  • Em talha dourada; considerado por Borrela “uma raridade”
  • Centro: Tetramorfo (quatro símbolos dos evangelistas: águia, touro, leão, anjo), rodeado de colunas salomónicas (um par de cada lado), tímpano com Deus
  • Base: sacrário com Cristo em baixo-relevo + sigla IHS (Jesus Homini Salvatore)
  • Borrela atribui a encomenda à Companhia de Jesus (Colégio de Beja, 2.ª metade do séc. XVI; ver Colégio dos Jesuítas e Paço Episcopal)

Outros altares

  • Dois altares mais simples com imagens barrocas do séc. XVIII: S. João Baptista e S. João Evangelista

Coro alto

  • Grande pintura sobre tela — Ressurreição de Cristo (interpretação barroca, séc. XVIII); segundo fotografia de 1890, pertencia originalmente ao coro alto da Igreja Conventual da Conceição; necessita de limpeza e conservação

Corpo da nave / capelas-mor

  • Retábulo com pinturas sobre o Claviculário (muito repintadas) — cit. no Guia de 1950
  • Transepto: contém o corpo incorrupto de Madre Mariana da Purificação, religiosa do demolido convento (não identificado por Borrela)

Personagem histórico mencionado

Miguel Jacome Esquível — vigário geral; primeiro clérigo doutor teólogo da Universidade de Évora; organizou as primeiras tropas de defesa de Beja durante a Restauração; lançou a primeira pedra da Igreja de S. Sisenando; foi prior da Igreja do Salvador (fonte: Enciclopédia Diocesana, 1961).

Nota comparativa de Borrela

Borrela enumera os altares mais originais de Beja: a Árvore de Jessé (Igreja de Santa Maria), o Tetramorfo (Salvador), os altares de mármore embutido policromo de S. João Baptista e S. João Evangelista (Conceição), e as capelas góticas do Paço Episcopal (S. Estêvão/Sagrado Coração de Jesus) e do panteão ducal.

Entidades mencionadas

Locais: Igreja do Salvador · Portas de Moura · Mouraria de Beja · Ermida de S. Pedro · Colégio dos Jesuítas e Paço Episcopal · Convento da Conceição · Igreja de S. Tiago · Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz
Pessoas: Leonel Borrela · Abel Viana · Túlio Espanca · Félix Caetano da Silva
Temas: Conventos de Beja · Pinturas Murais de Beja · Diocese de Beja

Documentos relacionados

Como citar

Borrela, Leonel (1995). A Igreja do Salvador (I e II). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense [parte II: 18 de Agosto de 1995].

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