Trabalhos Arqueológicos no Vale de Barrancas (Jesus et al., 2001)
Artigo de Luciana de Jesus, Luís Filipe Coutinho Gomes, Pedro M. Sobral de Carvalho e Filipe João Carvalho dos Santos sobre a intervenção arqueológica realizada no Vale de Barrancas (Pego da Lã), na freguesia de Mombeja, concelho de Beja. Os trabalhos decorreram no âmbito das medidas de minimização do impacto da variante da EN 121 a Beringel.
Identificação e localização
O sítio ocupa uma encosta suave em solos argilosos dos chamados barros de Beja. A dispersão superficial de materiais alcançava cerca de 2 ha e levou inicialmente a admitir a presença de um vicus. As sondagens mostraram, porém, que as estruturas conservadas se concentravam em aproximadamente 500 m² e pertenciam a um modesto casal ou quinta agrícola romana.
O microtopónimo recolhido oralmente no local foi Pego da Lã. A estação integrava o território rural de Pax Iulia.
Intervenção de 1999
Os trabalhos de campo decorreram entre 18 de Outubro e 16 de Dezembro de 1999. A área escavada foi coberta com solos vegetais no final de Janeiro de 2000. A intervenção combinou reconhecimento superficial, sondagens manuais e mecânicas e escavação em área.
A maior parte do assentamento terá sido intervencionada, embora os autores admitam que pudesse prolongar-se para este, fora da zona afectada pela estrada. Uma pequena área sob uma oliveira não foi escavada e ficou sujeita a acompanhamento arqueológico durante a obra.
Complexo habitacional
O sector principal correspondia a um edifício modesto com quatro compartimentos. Os autores interpretaram o compartimento 1 como cozinha, entrada e espaço de armazenamento de cereais; os compartimentos 2 e 3 como quartos; e o compartimento 4 como arrecadação aberta a oeste para guardar alfaias agrícolas.
Em redor da casa foram identificados um pequeno forno, um silo, fossas detríticas e várias estruturas de apoio ao quotidiano. Um segundo sector, muito destruído e com escasso espólio, poderá ter servido para guardar gado ou alfaias sob uma cobertura de materiais perecíveis. Esta função permanece hipotética.
Uma vala larga que partia da casa em direcção a uma cota inferior foi interpretada, com reservas, como possível estrutura de condução das águas pluviais. A leitura das fundações e dos cortes sugere pelo menos dois momentos de utilização ou remodelação do assentamento.
Sepulturas
Junto do complexo foram escavadas três inumações, estudadas no terreno por Teresa Tavares:
- Uma criança com idade estimada de cinco anos, depositada em decúbito dorsal sob fragmentos de tegulae, imbrices e dolia, sem espólio associado.
- Uma mulher adulta, também em decúbito dorsal, numa sepultura coberta por pedras, fragmentos de tegulae e imbrices. A análise preliminar registou tártaro, cáries e patologia degenerativa na cabeça do fémur direito.
- Um recém-nascido de sexo indeterminado, numa pequena caixa construída com fragmentos de tegulae e tijoleiras.
O artigo não fornece elementos que permitam datar autonomamente estas sepulturas ou demonstrar que todas pertencem ao mesmo momento de ocupação.
Cultura material e cronologia
O espólio era maioritariamente cerâmico: materiais de construção, cerâmica comum, dolia, um peso de tear e dois fragmentos de terra sigillata hispânica. Recolheram-se ainda dois fragmentos de mós manuais, placas de mármore cinzento, vidro, um escopro de ferro, escórias e uma moeda de bronze muito degradada.
Um fragmento decorado de sigillata foi atribuído aos séculos I-II. A moeda foi considerada, com dúvida, um bronze do Baixo Império. Ambos apareceram no topo de um nível de derrube, pelo que não datam com segurança a fundação, as remodelações ou o abandono do conjunto. Os autores mantiveram a cronologia global apenas dentro da época romana.
Interpretação
O assentamento de Vale de Barrancas não apresenta a monumentalidade de uma villa. Os autores classificaram-no como farmstead ou casal agrícola: uma exploração familiar modesta, orientada para a subsistência e apoiada por estruturas agro-pecuárias.
O caso demonstra também os limites da classificação baseada apenas na dispersão superficial dos materiais. As lavouras mecanizadas tinham espalhado os vestígios por uma área muito superior à extensão efectiva das ruínas.
Documentos relacionados
Villae Romanas do Território Pacense · Intervenção de Emergência numa Villa dos Arredores de Pax Iulia (Serra e Porfírio, 2009) · A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes)
Como citar
Jesus, Luciana de, Gomes, Luís Filipe Coutinho, Carvalho, Pedro M. Sobral de, & Santos, Filipe João Carvalho dos (2001). Trabalhos arqueológicos no Vale de Barrancas (concelho de Beja). Vipasca - Arqueologia e História, (10), 27-45.