Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz (Isabel Mendonça e Ricardo Pereira, 1993-2002)
Ficha do SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (IHRU) relativa à Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, sede da Real Irmandade do Senhor de ao Pé da Cruz (que possuiu também hospital). Classificada como Imóvel de Interesse Público (Dec. n.º 45 327, de 25 de Outubro de 1963).
Caracterização
- Tipologia: Arquitectura religiosa chã/barroca; igreja de nave única
- Localização: Rua do Pé da Cruz, Beja — antigo arrabalde das Alcaçarias
- Época de construção: Séc. XV / XVII / XIX
- Autores: entalhador Manuel João da Fonseca (retábulo-mor, 1703); pintor Francisco Nunes Varela (pinturas a óleo, 1677)
- Utilização: Religiosa (Igreja Católica, Diocese de Beja) — ininterrupta
- Propriedade: Privada — Igreja Católica (Diocese de Beja)
- Protecção: IIP — Decreto n.º 45 327, Diário do Governo, 1.ª série, n.º 251, 25 Out 1963
Descrição arquitectónica
Planta longitudinal com nave e capela-mor rectangulares, sacristia e sala da Irmandade adossadas a Sul. Fachada principal (SO.) de austeridade chã: pano único caiado, cunhais de cantaria de mármore de Trigaches, pináculos piramidais nos coroamentos, frontão com cruz latina e brasão real no tímpano; portal de verga recta com moldura de cantaria encimado por frontão; cronograma “1696” em ferro forjado na bandeira da porta; cronograma “1669” gravado na argamassa.
Interior — nave
Abóbada de berço assente em entablamento de talha dourada com cornija de folhas de acanto e friso de cartelas polilobadas alternadas com querubins. As paredes são integralmente revestidas a azulejos de tapete seiscentista de maçarocas (2×2, azul e amarelo), concebidos para integrar pinturas a óleo sobre tela — as pinturas da Paixão de Cristo de Francisco Nunes Varela (1677). Coro-alto em madeira com balaustrada; púlpito com dossel de madeira entalhada; banco corrido de madeira em modilhões de cantaria.
Interior — arco triunfal e gradeamento
Arco de volta perfeita com moldura de talha dourada; pilastras com enrolamentos de acanto e meninos assentes em plintos pintados a simular embutidos florentinos; gradeamento de ferro forjado com balaústres e túlipas — considerado uma das melhores obras de ferro da cidade. Portão central encimado por pombas em ferro forjado.
Interior — retábulo-mor
Obra de Manuel João da Fonseca (contrato notarial de 25 Out 1703), um dos mais importantes entalhadores da época — executou também o retábulo da Capela Real. Planta côncava de um só eixo, ampla tribuna em arco de volta perfeita com colunas pseudo-salomónicas, trono de cinco registos e ático semicircular com arquivoltas torsas. A talha é ricamente dourada com apontamentos polícromos. Na mesa de altar, túmulo do Senhor Morto com quatro anjos em adoração, encerrado por frontal amovível de talha vazada. Dois retábulos laterais na própria capela-mor — situação rara.
Interior — sala da Irmandade
Coberta por abóbada de berço decorada com pintura mural de perspectiva arquitectónica (dois ordens de colunas, medalhões octogonais com a Ressurreição de Lázaro e Cristo e a Samaritana). A parede de topo tem pinturas murais de brutescos polícromos — um dos raros exemplos de perspectiva arquitectónica no Alentejo. Em 2012 foram descobertas pinturas murais a folha de ouro no tímpano do coro-alto (brutescos com anjinhos e grinalda), ocultas por uma tela da Última Ceia; ao centro um óculo entaipado com a inscrição “Fessedesmolas Anno 1672”.
Epigrafia
Duas lápides sepulcrais no pavimento da nave; na capela-mor, lápide gótica ilegível e lápide de “S. DO P.E FRAN.CO LEITAÕ MACHADO”.
Cronologia
- 1488 — fundação do primitivo templo por Manuel Raposo de Brito; a abside do primitivo templo tem vestígios identificados
- 1499 — documentada uma capéla no local
- 1669 — reconstrução do templo (inscrição na fachada; provável data de sagração)
- 1672 — execução das pinturas murais a folha de ouro do coro-alto, custeadas pelas esmolas
- 1677 — conclusão das pinturas a óleo da nave por Francisco Nunes Varela
- 1697 — data da porta principal (cronograma em ferro forjado)
- 1699 — retábulo-mor concluído (segundo Túlio Espanca)
- 1703, 25 de Outubro — contrato notarial com Manuel João da Fonseca para execução do retábulo-mor
- Séc. XVIII, 3.º quartel — pinturas a óleo das paredes laterais da capela-mor
- 1859 — pinturas da abóbada da capela-mor
- Fins séc. XIX — D. Carlos visita a igreja; aceita ser Juiz Honorário; a irmandade torna-se Régia Confraria (confirmado por D. Manuel II)
- 1921 — demolição pela Câmara do Calvário seiscentista fronteiro à igreja (planta circular, cúpula hemisférica com lanternim, pedras do Gólgota)
- 1963 — intervenção da DGEMN: demolição de construções adossadas, reconstrução de coberturas, reparação de campanário
- 2012 — obras de requalificação (QREN/PRUCHB, 80% financiamento público); descoberta das pinturas murais do coro-alto e de pinturas na sanca do nicho do altar do Evangelho
Entidades mencionadas
Locais: Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz · Real Irmandade do Senhor de ao Pé da Cruz · Trigaches
Pessoas: Manuel João da Fonseca (entalhador) · Francisco Nunes Varela (pintor) · Túlio Espanca · Manuel Raposo de Brito
Temas: SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitectónico · Inventário do Património de Beja · Arte Barroca em Beja
Documentos relacionados
- A Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz (Leonel Borrela, 1995) — crónica da Iconografia Pacense
Como citar
Mendonça, Isabel; Pereira, Ricardo (1993/2002). Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz. SIPA — Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. IPA n.º IPA.00000277. IHRU.