A Rua do Sembrano e a Ocupação Pré-Romana de Beja (Carolina Grilo, 2007)
Relatório de Carolina Grilo sobre as escavações na Rua do Sembrano (campanhas de 1980-90 e, sobretudo, 2003-2004, no âmbito do Projecto de Musealização que dirigiu). É a prova arqueológica de referência do oppidum pré-romano que precedeu Pax Iulia — questão há muito debatida na historiografia (Viana, Ribeiro) mas até então sem argumentos seguros (Alarcão, Fabião). Citado como “Grilo 2007: 263” noutros estudos.
🏺 Sob as termas romanas da Rua do Sembrano apareceu uma muralha da Idade do Ferro — a confirmação material de que Beja já era um povoado fortificado séculos antes dos romanos.
A muralha da Idade do Ferro
- Estrutura defensiva robusta (3 m de espessura, orientação NO-SE, ~25 m documentados), com dois paramentos de grandes blocos de gabro/diorito local e enchimento pétreo — modelo típico dos povoados fortificados do Sudoeste Peninsular; base com sistema de drenagem
- Datação: inícios do séc. IV a.C. (confirmada por um fragmento de Kylix ático de figuras vermelhas com palmetas no nível de arranque)
- O investimento inicial focou-se na fortificação (estruturas habitacionais precárias no interior) — paralelo às Mesas do Castelinho (Almodôvar)
Cultura material e cronologia
- Cerâmicas pintadas “ibero-turdetanas” (bícromas e monocromas, bandas e círculos), cerâmica ática, produções manuais — paralelos na Andaluzia Ocidental, Castro Marim (Algarve Oriental) e no Baixo Alentejo (Herdade do Pomar/Ervidel, Mesas do Castelinho, depósito votivo de Garvão)
- Coroplastia (figuras de terracota): um equídeo estilizado e uma cabeça de carneiro realista (parte de recipiente votivo, com paralelo no “morillo” de Reillo) — indício de culto doméstico
- Estruturas: Ambientes 1-3, buracos de poste, lareiras/fornos domésticos
- Continuidade na época republicana (até meados da 2.ª metade do séc. II a.C.): campaniense A, ânforas itálicas e gaditanas (tipo CCNN) — primeiros contactos com o mundo romano
Significado: Beja como enclave central
- O “planalto” de Beja, no centro da peneplanície alentejana, controlava o acesso aos recursos mineiros de Aljustrel e Castro Verde e ao Campo de Ourique — um enclave central numa zona de fronteira entre as bacias do Sado e do Guadiana
- Dimensão estimada do oppidum: ~11-12 hectares (a par dos dados de M. Conceição Lopes no Conservatório e na Praça de Armas do Castelo) — modesto no conjunto dos povoados do Sudoeste (cf. Nertóbriga, Cabeça de Vaiamonte)
Entidades mencionadas
- Pessoas: Carolina Grilo (autora) · M. Conceição Lopes · Susana Correia
- Locais: Rua do Sembrano · Praça de Armas do Castelo · Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo
- Temas: Pax Iulia — Roma em Beja · Conistorgis · Necrópoles da Idade do Ferro de Beja
Documentos relacionados
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — o debate sobre a pré-existência de Pax Iulia
- A Rede de Cloacas em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025) — cita esta muralha como prova do oppidum
- Materiais Islâmicos do Sítio da Rua do Sembrano (Helena Casmarrinha) — fases posteriores do mesmo sítio
Como citar
Referência (APA): Grilo, Carolina (2007). A Rua do Sembrano e a ocupação pré-romana de Beja. Vipasca – Arqueologia e História, 2.ª série, (2), 261-268.