Al-Mu’tamid, o Rei Poeta de Beja (Bruno Ferreira, O Atual, 2023–2024)

Artigo de divulgação histórica sobre Al-Mu’tamid, publicado no jornal online O Atual. Baseia-se essencialmente em Adalberto Alves, Al-Mu’tamid Poeta do Destino (Assírio & Alvim, 2004) e na conferência de António Dias Farinha (Na Evocação de Al-Mu’tamid, Poeta Árabe de Beja, Câmara Municipal de Beja, 25 Mai 1985; separata do Arquivo de Beja II, 2.ª série), além de Maria João Cantinho (Revista Caliban, Fev. 2020).

Dados biográficos

Nome completo: Abt-l-Qâsim Muhammad Ibn Abî Amr Abbad Ibn Muhammad Ibn Ismail al-Lahmi al-Zafir Bihaul al-Lâh al-Mu’ayyad bi-llâh Al-Mu’tamid ala al-lah.1

Nascimento: Dezembro de 1040, Beja. Viveu em Beja até aos 11 anos. Mãe provavelmente uma berbere bejense do harém de seu pai. Pai: Abbad Al-Mutadid, que governava Beja em nome do avô Ismail ibn Abbad, suserano de Sevilha. Baptizado com o nome do avô Abu Al-Qasim Maomé; título honorífico Almoaíde Bilá.1

Beja na época: “cidade de notável prestígio económico, político e cultural” (Adalberto Alves); “a mais importante cidade ocidental do poderoso reino Andaluz”.1

Percurso:

  • Aos 11 anos: governador nominal de Huelva
  • Aos 13 (1053): enviado pelo pai para assediar Silves; governa a cidade conquistada
  • Em Silves conhece Ibn Ammâr, poeta plebeu, futuro grão-vizir e amigo íntimo
  • 1069: morte do pai Al-Mutadid; Al-Mu’tamid (29 anos) assume o reino de Sevilha com o nome Al-Mu’tamid
  • Irmão mais velho morreu às mãos do próprio pai (acusado de traição); Al-Mu’tamid herdou o trono por isso

Rainha Itimad (Itimad al-Rumaykya): escrava de um muleteiro chamado Rum, descoberta pelo príncipe junto ao rio Arade (não o Guadalquivir, como se pensava); completou de improviso um verso que Al-Mu’tamid propusera a Ibn Ammâr — e conquistou o coração do rei. Ascendeu imediatamente a rainha; acompanhou-o até à morte no exílio.1

Morte de Ibn Ammâr: Al-Mu’tamid foi ao cárcere e golpeou com uma acha o seu amigo (convencido de nova traição por inimigos da corte, usando um mal-entendido sobre uma carta). Ibn Ammâr fora sepultado no palácio real Al-Mubârak, junto à Porta da Palmeira, Sevilha. “Com a morte de Ibn Ammâr, Al-Mu’tamid aproxima-se mais do seu próprio fim político.”1

Chamada dos Almorávidas: 14 Ago 1085 — missiva a Yûsuf ibn Tâshfin pedindo ajuda contra Afonso VI. Tropas almorávidas vieram três vezes (1086, 1088, 1090). A célebre frase: «Antes condutor de camelos em África do que porqueiro em Castela.» No terceiro envio, Ibn Tâshfin apoderou-se de quase todos os reinos taifas.1

Exílio e morte: deportado para Aghmat (Marrocos). Revolta do filho ‘Abd al-Jabbâr em Arcos (1093) fracassou; Ibn Tâshfin pôs Al-Mu’tamid a ferros até à morte. Morreu na masmorra a 14 de Outubro de 1095; a sepultura tornou-se local de peregrinação, ainda hoje venerado.1

Ligação a Beja

O provável local de nascimento em Beja era a Casa dos Corvos (“Casa de Aladino”), um dos alcáceres dos emires da cidade, ao lado da actual Igreja de Santa Maria da Feira (sucessora da antiga mesquita-aljama). O palácio foi destruído pela administração da cidade entre finais do séc. XIX e princípios do séc. XX.1

Fernando Pessoa e Al-Mu’tamid

Fernando Pessoa contribuiu para a divulgação do legado de Al-Mu’tamid no final dos anos 1920 — começou por ler o rei-poeta traduzido para inglês e passou a difundir o seu legado em textos publicados nesse período.1

Como citar

Ferreira, B. (2023–2024). Al-Mu’tamid, o Rei Poeta de Beja. O Atual — Informação de Verdade. https://oatual.pt [artigo de divulgação; fontes: Adalberto Alves 2004; Farinha 1985]

Fontes relacionadas

Tags

islamico beja

Footnotes

  1. Ferreira, B. (2023–2024). Al-Mu’tamid, o Rei Poeta de Beja. O Atual. 2 3 4 5 6 7 8 9