Restos Monumentais de Pax Julia VIII — Um Criptopórtico? (Leonel Borrela, 1998)

Fonte manuscrita: Joseph Gago da Silva (1745)

Das fontes manuscritas mais curiosas do Arquivo Municipal de Beja: Joseph Gago da Silva, bejense, licenciado em Artes pela Universidade de Évora, 1745 — “Notícias das antiguidades da cidade de Beja” (11 fólios manuscritos + 1 em branco não numerado), dedicada a Santo Sisenando, patrono da cidade. Subtítulo: “tractado único em que se tracta também de muitas notícias pertencentes a Portugal e aos Hespanhoes”.

Embora não descreva em pormenor as “antiguidades” que viu nem as consiga datar, Borrela conclui que pertenceriam ao período romano. O padre Pires Nolasco (prior da demolida Igreja de S. João) faz referência análoga no último quartel do séc. XVIII chamando-lhes “antiguidades, coisas muito antigas e toscas” (cabeças de touro, fustes, elementos arquitectónicos).

Coluna da Rua de Aljustrel (c. 1742)

Fol. 9: “Há 3 anos, abrindo João de Freitas um alicerce para fazer uma parede de umas casas na Rua de Aljustrel, quando mais fundo se cavava a terra mais fofa se achava sem firme até que na fundura de duas varas se encontrou coluna deitada grossa a que não se abraçava um homem e tão comprida que alcançava duas moradas de casas e do meio para suas pontas tinha já encima o alicerce de outra parede das ditas casas e mostrava ser coluna do templo que ali se demolio.”

Menciona também “alicerces de casas que se acham no Convento de Santa Clara e no Rocio do Pé da Cruz”. Félix Caetano da Silva (final séc. XVIII) salienta igualmente os restos da área do Convento de Santa Clara e um grande maciço (restos de aqueduto?) próximo da Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz.

Passagem subterrânea — possível criptopórtico

Gago da Silva descreve uma “rua subterrânea” entre a Rua da Cadeia Velha e a Travessa do Valverde (topónimo ainda existente, a travessa actualmente um beco): “larga, seis passos, e tão comprida que se não sabe o fim por escura e medonha; por cima dela estão grandes moradas de casas”. Também: “A cada passo que na cidade se faz alguma coisa funda para alicerces, se acham edifícios arruinados, pedras lavradas, de vários feitios e grandes canos de argamassa dura e muito grandes e tão compridos que atravessam a cidade.”

Borrela: poderá ter sido parte de um criptopórtico do período romano, situado num dos extremos do fórum ou do capitólio — mas sem conclusões firmes: “fica a notícia”.

Ilustração: demolição da torre das Portas de Mértola (anos 30)

O artigo é ilustrado com fotografias da demolição parcial (anos 30) de uma das torres das Portas Romanas de Mértola — a da direita para quem sobe, adquirida em hasta pública por um particular. Adjacente estava a casa do Dr. Palma Mira; nos baixos/cave uma torrefacção de café (área hoje aberta em frente do que resta da torre, com acesso à CGD). As fotos mostram: seta indicando até onde se demoliu a torre; plano geral da demolição (andaimes, carro de besta); aspecto actual (postal dos anos 60) — torre reduzida a metade.

Entidades Mencionadas

Arquivo Municipal de Beja · Félix Caetano da Silva · Porta de Mértola · Filial da Caixa Geral de Depósitos de Beja · Convento de Santa Clara · Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz · Joseph Gago da Silva · Padre Pires Nolasco · João de Freitas · Dr. Palma Mira

Fontes

Borrela, L. (1998, Agosto 7). Restos monumentais de Pax Julia VIII — Um criptopórtico? Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Silva, J. G. da. (1745). Notícias das antiguidades da cidade de Beja. Ms. Arquivo Municipal de Beja. [11 fólios]