O Teatro Pax-Júlia I–II (Leonel Borrela, 1999)
Primeiro de dois artigos sobre a história do Cine-Teatro Pax Julia.
Antecedentes: o Hospício e Igreja de Santo António
Em 21 de Dezembro de 1862, Manuel Eleutério de Castro Ribeiro (Visconde da Corte) adquiriu por 522$00 réis os dois edifícios — a Igreja e o Hospício de Santo António — situados entre a Rua da Conceição (actual Rua Visconde da Boavista) e a Rua Tomás Vieira. Área aproximada: 1 300 m². É o mesmo lugar actualmente ocupado pelo cinema Pax-Júlia.
As obras de construção do teatro começaram a 10 de Agosto de 1866 e o edifício só foi inaugurado a 19 de Dezembro de 1928 — um processo de mais de 60 anos, que Borrela compara à “obra de Santa Engrácia”.
Achados arqueológicos nas fundações (1866)
As obras puseram a descoberto, a cerca de 3 m de profundidade, importantes vestígios arqueológicos maioritariamente romanos, descritos no jornal O Bejense:
- Pavimento de xadrez em mármore branco e vermelho
- Pedestais
- Sepulturas
- Anel do tempo de Cláudio (imperador romano, r. 41–54 d.C.)
- Moedas diversas
- Quatro urnas com medalhas (já pouco legíveis) + outra com moeda de Constantino
- Lápide com inscrição latina sobre Pax Julia — foi picada e reutilizada como soleira de porta numa das casas fronteiras à Rua de Santo António (destruída)
- Cipo com inscrição funerária
Na esquina entre a Rua da Conceição e a Rua de Santo António, foram selados nos alicerces: 3 moedas (1 de ouro + 2 de prata, do reinado de D. Luís, datadas de 1866) + o n.º 304 de O Bejense com a descrição do hospício + a cópia da carta de arrematação + a lista dos sócios fundadores do teatro + acta de 14 de … (texto interrompido no PDF).
II — Da inauguração às remodelações (13 Ago 1999)
As obras prolongaram-se de 1866 a 1928; a fase final foi executada pela firma “Castelo Lopes Lda.” (arrendatária). Inaugurado pela companhia de Ilda Stichini com Simone e O Centenário, seguidos de Frei Luís de Sousa, Manelito etc. Sessões de animatógrafo três vezes por semana.
Remodelação do final dos anos 40 para adaptação ao filme sonoro e ao ecrã grande: ~1 200 cadeiras em três “classes” — plateia (rés-do-chão), primeiro balcão com frisas (2.º piso, entrada pela porta principal orientada para a Sociedade Bejense) e o “piolho” (3.º piso, entrada pela Rua Tomás Vieira). As fachadas foram também alteradas nessa remodelação, ganhando as máscaras trágico-cómicas a sustentar um balcão e as janelas laterais actuais. Desconhece-se qualquer fotografia do interior antes desta remodelação.
Teatros provisórios em Beja antes e durante a construção do Pax-Júlia:
- Refeitório do Convento de S. Francisco (após extinção das ordens, 1834)
- Celeiro da actual Galeria Municipal dos Escudeiros (ex-capela de padre Damião; cf. Guia de Beja de 1928) — onde actuaram António Adriano Correia da Fonseca, o médico Joaquim Tela, a companhia Lopes com Rosa Damasceno; elogiados por João de Deus que vivia em Beja em 1861 e era redactor de O Bejense
- Rua da Moeda — teatro pequeno, grupos amadores e companhias de reduzido número de actores
- Igreja conventual de S. Francisco (sécs. XIX-XX) — Taborda, Izidoro, Jesuma, companhia Ginásio de César Pala e Maria das Dôres, Zarzuela de D. Manuel Larripa
- No próprio Pax-Júlia ainda sem telhado actuaram as companhias Batista Ferreira (texto interrompido no PDF)
Nota sobre as fontes
Borrela cita o jornal O Bejense como a fonte primária dos achados arqueológicos. Não é claro se a lápide de Pax Julia ainda existe ou se foi irremediavelmente destruída ao ser usada como soleira.
Entidades Mencionadas
Cine-Teatro Pax Julia · Convento de S. António · Manuel Eleutério de Castro Ribeiro (Visconde da Corte) · O Bejense (jornal)
Fontes
Borrela, L. (1999, 30 de Julho). O teatro Pax-Júlia (1). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense.