Do Convento de São Francisco de Beja I–II (Leonel Borrela, 2007 e 2001)

Dois artigos sobre o Convento de S. Francisco: o Part I (c. fev 2007) trata da história e da passagem a Pousada; o Part II (30 Nov 2001) analisa as vicissitudes das obras de reabilitação e a arquitectura estratificada.


Parte I — História e conversão a pousada (c. fev 2007)

Fundação: 10 de Novembro de 1268, extramuros, às Portas de Mértola. Patronos: alcaide-mor Lopo Esteves, vereadores Diogo Fernandes e Vasco Martins; terrenos de Pêro Pires; esmola de um arcebispo de Santiago de Compostela; protecção real de D. Dinis (fundou nele uma capela de S. Luís em 1302, na sequência do milagre do urso em S. Pedro de Pomares, Baleizão).

Maior convento da cidade: a horta correspondia ao espaço hoje ocupado pelo Jardim Público, Estufa e Mercado Municipal. Nunca ultrapassou ~100 religiosos residentes (o Convento da Conceição chegou a ter ~250 religiosas + 100+ criadas no séc. XVII).

Jurisdição franciscana sobre todos os conventos bejenses subsequentes: Convento de Santa Clara, Hospício de Santo António, Convento da Conceição, Convento de Santo António. Só a partir de 1525 a Ordem Carmelita pôde ter cenóbio na cidade.

Classificação: Imóvel de Interesse Público, Dec. 16 Mai 1939.

Pousada: Entregue à Enatur — Pousadas de Portugal em 1994.


Parte II — Arquitectura e obras de reabilitação (30 Nov 2001)

Vicissitudes pós-extinção (1834–1994):

  • Capela dos Túmulos (ogival) — “uma das mais belas do Alentejo” (Mário Tavares Chicó, 1905-1966, natural de Beja) — serviu de palheiro e barbearia; arcas tumulares despojadas e usadas como bebedouro para cavalos
  • Nave da igreja: dividida horizontalmente com laje de betão armado — piso inferior = cantina militar; piso superior = ginásio/basquetebol
  • Refeitório (melhor abóbada de cruzaria nervurada manuelino) — serviu de garagem
  • Fase final: residência de famílias de militares/sargentos

Obras de reabilitação (1992-1994): investimento de mais de 1 milhão de contos (>5 milhões de euros).

Descobertas durante as obras:

  • Fecho de abóbada gótico (8 nervuras, ainda pintado, ornamentação floral ondulada) — importante peça de arquitectura ogival; actualmente exposto na capela dos túmulos
  • Estrela de David em pedra — com flores abertas nos segmentos; destinava-se provavelmente ao exterior de um braço de transepto

Arquitectura estratificada (leitura de Borrela):

  1. Igreja medieval (provável planta basilical)
  2. Início séc. XV: Capela dos Túmulos aberta no paramento lateral de um braço de transepto
  3. Sécs. XVII-XVIII: Igreja maneirista actual, terminada em 1723, adossada à capela dos túmulos
  • Janela geminada (D) que iluminava o transepto — desapareceu nas obras de reabilitação

Sala Capitular: azulejos 17th-18th c. — padrões portugueseses azul e branco + sevilhanos de xadrez verde e branco (já incompletos antes das obras).

Nota: Pedro Dias (1994:172) interpretou erroneamente o portal ogival da galeria claustral como revivalista. Borrela argumenta que é genuíno e anterior à capela dos túmulos, construído para aceder ao Capítulo.


Entidades Mencionadas

Convento de S. Francisco · Capela dos Túmulos (Convento de S. Francisco) · Ermida de S. Pedro de Pomares · D. Dinis · Mário Tavares Chicó · Túlio Espanca · Vítor Serrão

Fontes

Borrela, L. (c. fev 2007). Do Convento de São Francisco de Beja — I. Diário do Alentejo — Alentejo Ilustrado — Iconografia Pacense. Borrela, L. (2001, 30 de Novembro). Do Convento de São Francisco de Beja — II. Diário do Alentejo — Alentejo Ilustrado — Iconografia Pacense.