A Igreja de Santa Maria da Feira (Leonel Borrela, 1995)
Série de três crónicas da Iconografia Pacense (Diário do Alentejo, 25 Ago–8 Set 1995) dedicadas à Igreja de Santa Maria da Feira, o monumento pacense que Borrela descreve como “o mais curioso pelo seu hibridismo”.
Resumo
Artigo I — Área envolvente e memória urbana
- A Igreja de Santa Maria da Feira insere-se “na área de maior monumentalidade da urbe bejense”.
- Borrela evoca, de forma panorâmica, a memória da área: a mesquita “dos mouros” anterior à igreja; as feiras realizadas “em redor de Santa Maria da Feira”; a Sé visigótica que precedeu a mesquita; a “abadia” (ampla construção abobadada sob o antigo restaurante Alentejano, antes sob a Casa dos Corvos, demolida em 1897).
- A capelinha de N.ª Sra. da Luz — demolida em 1970 para “desafrontar a ábside” — ficava entre dois contrafortes, na antiga Rua da Capelinha; Borrela lamenta que em vez de valorizar o monumento, o resultado foi a criação de mais um parque de estacionamento.
- A antiga Caixa Geral de Depósitos, obra do arquitecto Pardal Monteiro, substituiu em 1923 a demolida Passo e Capela do Rosário (com campanário e passo) que estava adossada à igreja no lado do evangelho.
- O baptismo de Caçuta, embaixador do Congo, e dos seus acompanhantes na Igreja de Santa Maria, no reinado de D. João II, é evocado como evento histórico ligado ao templo.
- A Revolução de 1383/85 e o papel de Beja na precipitação da queda do governo de Castela são referidos como memória associada ao espaço.
- A torre sineira, antes de 1872, tinha “aspecto mais vetusto e mais acastelado”.
Artigo II — Arquitectura e cronologia
- Santa Maria é templo de três naves, quatro tramos, capelas laterais, ábside, nartex e torre sineira — “corpos diferenciados no estilo, na época da sua feitura e na volumetria”.
- Com a Sé Catedral e St.º Amaro, forma o núcleo dos edifícios de planta basilical da cidade; Santa Maria é “o monumento pacense mais curioso pelo seu hibridismo”.
- Cronologia aceite: Sé visigótica → mesquita → igreja cristã. Fundada c. 1259 por Joanes Muniones (1.º reitor); doada à Ordem de Avis por D. Afonso III em 1270. A feira de D. Afonso III (desde 1261) seria continuação de outras anteriores, de época árabe, realizadas à volta da mesquita.
- Ábside: seis contrafortes escalonados em fortes sapatas, suportando abóbada nervurada que ruiu na 2.ª metade do séc. XVIII (possivelmente no terramoto). O espaço interior da ábside ficou completamente preenchido com os escombros, abaixo das janelas geminadas e junto às mísulas e arranques das nervuras. Borrela sugere uma prospecção arqueológica.
- Entre os contrafortes, cinco janelas geminadas coavam a luz através de vitrais — “de simples emolduramento, biseladas, sem impostas, bases ou capitéis”.
Artigo III — Interior e recheio
- Árvore de Jessé: talha policromada e dourada, “uma das obras-primas da cidade”; raízes em David, cume em Cristo, com genealogia do Salvador.
- Ceia de Cristo: óleo sobre tela de Pedro Alexandrino de Carvalho, 1794, na Capela do Santíssimo Sacramento.
- Capela de S. Miguel Arcanjo (hoje N.ª Sra. de Fátima): séc. XVII, colunas salomónicas, tribuna e trono; janelas com pinturas barrocas de folhagem de acanto.
- Altar de N.ª Sra. das Dores: séc. XVIII, “mesmo oiro sobre azul”, oculta e danificou em parte uma pintura trompe l’oeil que cobria a antiga capela, com figuras humanas/anjos de dimensão maior que o natural (pelo menos quatro).
- Baptistério: pintura de 1722, “a precisar de recuperação”.
- Quatro portais barrocos, possivelmente de 1794: dois flanqueiam a capela-mor; os outros dois fazem ligação com a demolida Capela do Rosário (lado do Evangelho, agora baptistério novo) e com o antigo baptistério (lado da Epístola).
- Sacristia: Cristo Crucificado de feição expressionista e dramática — Borrela compara a Lucas Cranach, Hugo Altdorfer e Matias Grunewald; Pietá, óleo sobre madeira (seiscentista?).
- Torres sineiras geminadas: a torre camarária teve o 1.º relógio por iniciativa de D. Manuel I, substituído em 1761 por António Franco (relojoeiro bejense). O sino mais antigo (quatrocentista, com caracteres góticos) é “obra de extrema raridade”.
Entidades mencionadas
Locais: Igreja de Santa Maria da Feira · Filial da Caixa Geral de Depósitos de Beja · Casa dos Corvos · Igreja de S. Tiago · Igreja de Santo Amaro
Pessoas: Pardal Monteiro · D. João II · D. Afonso III · D. Manuel I · Pedro Alexandrino de Carvalho
Documentos relacionados
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — dados históricos paralelos
- A Igreja de Santo Amaro (Leonel Borrela, 1996) — série comparativa sobre planta basilical
Como citar
Borrela, Leonel (1995). A Igreja de Santa Maria (I, II e III). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense, 25 Ago–8 Set 1995.
Tags
iconografia-pacense patrimonio igreja visigótico islamico beja