Dois Vasos Gregos da Necrópole do Cerro Furado, Baleizão (Arruda e Lopes, 2012)
Artigo de Ana Margarida Arruda e Maria da Conceição Lopes, publicado n’O Arqueólogo Português, Série 5, Vol. 2 (2012), pp. 401–415, sobre dois vasos gregos de figuras vermelhas provenientes da necrópole do sítio do Cerro Furado (Baleizão).
O sítio: Cerro Furado
Sítio arqueológico de grandes dimensões (c. 30 ha) na margem esquerda do Guadiana, freguesia de Baleizão, concelho de Beja. Engloba uma área de habitat e a necrópole correspondente, com ocupação da Idade do Ferro e de momento tardo-republicano romano.
Conhecido desde os anos 70 do séc. XX:
- Vasos fenestrados / “queimadores” (Ribeiro e Ferreira, 1971)
- Cerâmicas com estampilhas (Arnaud e Gamito, 1974–77)
- Trabalhos de campo de M. C. Lopes (fins do séc. XX): definição das áreas ocupadas, identificação de muralhas com torreões circulares e fossos
A necrópole situa-se junto ao caminho de acesso ao povoado (dos dois lados da estrada), a c. 200 m do habitat, com área de dispersão de c. 3000 m². Duas cremações primárias em urna foram estudadas por técnicos do IPA (Gonçalves, Costa e Angelucci, 2007): adultos de sexo indeterminado, cremações a alta temperatura com os tecidos moles.1
O sítio tem sofrido destruição intensa por caçadores de tesouros, o que trouxe à superfície numerosos materiais — incluindo os dois vasos gregos aqui publicados.
Os dois vasos gregos
Recolhidos à superfície na área da necrópole, muito fragmentados mas reconstituídos quase integralmente após restauro. Ambos de figuras vermelhas (técnica ática); produzidos c. 350 a.n.e..
Krater de sino
- Diâm. 30,6 cm; altura indeterminada (fraturado ao nível da ligação do corpo ao pé).
- Interior integralmente coberto de verniz negro.
- Face A: cena dionisíaca — dança de sátiros e ménades. Personagem principal: ménade vestida de peplos, no centro; dois jovens sátiros nus flanqueiam-na; uma segunda ménade dança à esquerda. Banda de fecho com “onda encrespada”.
- Face B: três personagens envoltas em mantos (degradação impede leitura completa).
- Atribuído ao Pintor do Tirsos Negro (Grupo do Pintor de Telos), c. 350 a.n.e. — com paralelos nos vasos de Alcácer do Sal (Grupo Viena 1025 / Pintor do Tirsos Negro).1
Skyphos
- Corrosão quase total do verniz impediu a leitura da cena decorativa.
- Possivelmente pintado pelo Pintor do Fat Boy, c. 350 a.n.e.1
Contexto e importância
A presença de cerâmica grega ática de figuras vermelhas numa necrópole da Idade do Ferro do Baixo Alentejo é excepcional. O Cerro Furado integra-se no sistema de povoamento da margem esquerda do Guadiana, fortemente conectado às rotas de comércio fenícias e ao mundo mediterrânico. Os vasos chegaram provavelmente via Gadir (Cádis) ou outro porto do Sul peninsular.
Entidades mencionadas
Locais: Cerro Furado (Baleizão) · Baleizão · Guadiana
Pessoas: Ana Margarida Arruda · M. Conceição Lopes
Temas: Necrópoles da Idade do Ferro de Beja · Idade do Bronze na Região de Beja · Pax Iulia — Roma em Beja
Como citar
Arruda, A. M., & Lopes, M. C. (2012). Dois vasos gregos da necrópole do Cerro Furado (Baleizão, Beja – Portugal). O Arqueólogo Português, Série 5, 2, 401–415.
Tags
proto-historia ferro ceramica-grega beja