Poços, Fontes e Chafarizes — II. O Chafariz e o Poço de Aljustrel (Figueira Mestre e Borrela, 1987)
Figueira Mestre, J. & Borrela, L. (1987). Poços, fontes e chafarizes da cidade de Beja — II: O Chafariz e o Poço de Aljustrel. Diário do Alentejo. (Série Iconografia Pacense.) Ambos membros da Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja.
Conteúdo
Artigo a duas mãos, o único da série com coautoria, sobre o Poço de Aljustrel e os dois chafarizes que lhe estão associados. Baseia-se principalmente num manuscrito de Padre José Inácio de Mira (1874), “Chafariz e Poço d’Aljustrel”.
Poço de Aljustrel
Situado à saída de Beja, lado esquerdo da estrada de Aljustrel.
- Primeira referência: Acórdão camarário de 8 de Julho de 1589 (o documento refere também 1509 — dupla datação), proibindo os aguadeiros de usar o poço por escassez de água: “nenhum Açacal que vende agoa irá ao poço d’Aljustrel sob pena de 500 reis”. “Açacal” = aguadeiro, do árabe assaca (regar ou dar de beber).
- Estrutura actual (restauro de 1875): abóbada sobre duplo pódio octogonal — corpo inferior em blocos de mármore, superior em argamassa de tijolo, pedra e cal; abertura circular no cimo onde se erguia o lanternim; friso de argamassa com folhas de acanto estilizadas nos cantos; quatro faces com arcos de volta inteira à maneira de nichos.
Chafariz pequeno (renascentista, defronte do poço)
Restaurado também em 1875. Cabeceira com máscara (possivelmente divindade da água) ladeada por aletas e vasos em baixo-relevo sobre pedestais — tudo em mármore.
Antigo Chafariz de Aljustrel (demolido 1732)
Situado ligeiramente acima, no lado direito da estrada. Construído inteiramente em pedra, com:
- Cabeceira rematada com ameias
- Brasão com armas reais e uma cabeça de touro ao centro
- Dimensões: 16 varas e um palmo de comprimento × vara e meia de largura
Demolido em 1732; as pedras foram usadas na construção da Igreja do Carmo.
(Nota: a fonte de Marta Páscoa indica 1738; os autores, baseados no manuscrito de P. J. I. de Mira, indicam 1732.)
Saboarias — Horta do Sabão
Contíguas ao antigo chafariz ficavam as saboarias de Beja (Horta do Sabão). Os autores levantam a hipótese de corresponderem às saboarias herdadas pelo 1.º Duque de Beja, D. Fernando, por morte do seu tio o Infante D. Henrique — mas a documentação disponível não confirma.
Lendas
- Bruxas e lobisomens reuniam-se à meia-noite à volta do poço e dançavam até de manhã.
- O Bejense (1872) regista um cristão-novo que confessou ter ido sobre um bode ao poço de Aljustrel esperar o Messias.
Fontes citadas no artigo
- “Chafariz e Poço d’Aljustrel” — manuscrito de Padre José Inácio de Mira (1874)