A Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz (Leonel Borrela, 1995)
Dois artigos em sequência:
- Art. I — “O Calvário” (10 Nov 1995): descreve a capelinha do Calvário, demolida em 1920/21.
- Art. II — “Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz” (Nov/Dez 1995): descreve a igreja propriamente dita.
Conteúdo
O Calvário (art. I)
“Um dos monumentos mais curiosos, pitorescos e típicos do Alentejo” — a capelinha do Calvário de Nossa Senhora ao Pé da Cruz tinha forma quase semi-ovoide, terminando numa cruz de ferro cravada de bicos. Lanternim típico dos sécs. XVII/XVIII (compará-vel ao da abside da Igreja dos Prazeres e da capéla da Senhora da Madalena de Ferreira do Alentejo).
No interior, ao fundo da única entrada: Cristo Crucificado ladeado de dois nichos (desde o chão) com imagens de dois judeus com os instrumentos do suplício do Redentor.
Demolida “pelo preço dos materiais”, pela mesma altura em que se demoliu a Igreja de S. João Baptista — sob proposta aprovada em sessão camarária de 1920 ou 1921, de um vereador chamado Ruaz. As suas portas de ferro ingenuamente trabalhado foram transferidas para um casinhoto anexo ao Tanque dos Cavalos (Bairro de S. João).
Ainda existem calvários semelhantes em Ferreira do Alentejo, Beringel e Serpa. Abel Viana (Arquivo de Beja, vol. II, 1945, p. 160) aponta feição alentejana destas construções com reminiscências de sepulcros de família tardo-romanos.
Fonte iconográfica: gravura do final do séc. XIX da colecção de F. Castro e Sousa; desenho de A.F. Paula Graça, ca. 1860.
A Igreja (art. II)
Fundação antiga — nas imediações ficava o Hospital de Vera Cruz, conforme documento do séc. XVIII. Primeiros alicerces possivelmente medievais: fundações de abside gótica contrafortada e polifacetada (detetadas por Figueira Mestre, confirmadas por Borrela). Edifício actual de aparência simples, final séc. XVII / séc. XVIII.
Fachada: data 1669 (provável sagração, pós-armistício com Espanha) e data 1696 inscrita na porta; brasão real oitocentista; duas pequenas sineiras de um só olhal com escadaria exterior adossada.
Interior:
- Azulejos seiscentistas (amarelo, azul e branco) nas paredes laterais da nave e da capéla-mor.
- Retábulo barroco em talha dourada, com baldaquino sobre colunas salomónicas e alegorias à Fé, Virtude, Esperança e Caridade.
- Cristo Jacente na mesa de altar, usado como urna — frontal vazado com laçarias de folhas de acanto para permitir visão do interior.
- Pinturas a óleo sobre tela na nave única: Francisco Nunes Varela (pintor eborense), temática da Paixão de Cristo, empreitada de 1665/67 (cf. Túlio Espanca, Inventário Artístico de Portugal, vol. XII, pp. 162ss.).
- Pinturas da capéla-mor: episódios do Novo Testamento, autor anónimo.
- Teia de ferro forjado — “uma das melhores obras em ferro forjado da cidade”.
- Pertence à Real Irmandade do Senhor de ao Pé da Cruz (consistório com abóbada pintada).
Entidades Mencionadas
Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz · Calvário de Nossa Senhora ao Pé da Cruz · Francisco Nunes Varela · Abel Viana · Igreja dos Prazeres (Beja) · Igreja de S. João Baptista · Figueira Mestre · F. Castro e Sousa · A.F. Paula Graça
Referências citadas pelo autor
- Espanca, Túlio — Inventário Artístico de Portugal, vol. XII (Distrito de Beja), pp. 162ss.
- Viana, Abel — Arquivo de Beja, vol. II, 1945, p. 160.
Fontes
Borrela, L. (1995, Novembro 10). O Calvário. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense. Borrela, L. (1995). Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz. Diário do Alentejo — Iconografia Pacense.